fogo e água

há alguns anos tive um problema doméstico sério. minha máquina de lavar simplesmente não dava sinal. imersa num sono profundo, não cedia aos meus apelos. conversei, chacoalhei, empurrei, rezei e nada. nenhum sinal. preocupada com sua saúde e meu bem estar, chamei o técnico. como era de se esperar nesse tipo de ocasião, o tempo era de vacas magras. e de inverno.

o inesquecível seu Alcebíades chegou cheio de propriedade. ele era meio parecido com um dos Irmãos Mário. boné, bigode, maleta. apesar da minha tagarelice sobre a falência múltipla da maquininha, ele quis testá-la. sim, quis. decerto havia de começar o trabalho sempre pelo mesmo lugar, independente do problema. para meu espanto e humilhação, ele logo descobriu o problema: a máquina não funcionava porque não estava ligada na tomada. eu não havia percebido. um plug e pronto. fez-se a vida. e veio a conta.

não foi um dos meus melhores momentos como dona de casa. estampa bem a realidade. tenho dificuldades em manter a atenção em alguns pormenores cotidianos. é assim, enquanto o mundo gira e eu me espanto, não consigo pensar nesses detalhes.

pois bem, nessa semana, com a obra, a maldita obra aqui do prédio, o gás foi desligado. pra todo mundo. ficamos um dia sem água quente e sem fogão. inferno sem fogo.

dia seguinte, pulei da cama a reconhecer o outono. friozinho de bater queixo. tratei da minha sequência matinal e imutável: girei o registro do chuveiro, fui à cozinha beber água, liguei o rádio, acendi a velinha perfumada e entrei no box. o encadeamento de ações é o tempo para que eu encontre a água a escorrer quentinha. e se eu conto tudo isso, é porque o final da história é tão óbvio quanto desastroso: tomei banho frio. o que comprometeu todas as horas do dia. mau humor. muito mau humor.

só o meu apartamento não tinha gás. claro, era um problema meu que coincidiu com o ocorrido no dia anterior no prédio. oh Deus!, quanta infelicidade. chamei o homem para consertar. pedi urgência. meia hora depois, anuncia-se pelo interfone um sócio do Rei dos Aquecedores.

fiquei muito impressionada. a realeza estava ali: mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo, como na música. entrou, narrei o problema e o deixei trabalhar. menos de um minuto depois, e sei que foi menos de um minuto depois, porque só tive tempo de trancar a porta e voltar, ele anunciou: pronto, resolvido. primeiro achei que se tratasse de ter solucionado o mistério, sabia o que estava a acontecer e trataria de consertar. mas o vi a segurar a maleta que nem abriu, a fazer ares de despedida, a puxar um papel do bolso já com uma Bic pendurada. interroguei. estava desligado, só isso. liguei, são 100,00, que é o valor da visita. antes de pagar, pedi para que me ensinasse a ligar a maldição do aquecedor. repeti a manobra como se eu fosse jogador em dia de treino de pênaltis. sei lá, queria aprender, mas acho que também queria manter o Rei aqui por mais uns minutos, meio de valorizar meus cem pilas.

tenho certeza absoluta que já não lembro mais como faz para dar start na geringonça, mas a experiência me fez pensar em como há beleza em nosso cotidiano, quando não nas ações ou na paisagem, a gente sempre pode encontrar nas palavras. gostei de pensar que durante uns minutos estive a falar com um rei, rei dos aquecedores, que pode bem ser o sol disfarçado de gente; ele me explicou coisas sobre chama-piloto, que, cá pra nós, é um grande nome, muitos significados. chama-piloto é o princípio, o beijo, talvez, entre o aquecedor e a água, coisa que começa o romance mais perfeito de todos: enlace entre fogo e água. incêndio molhado.

agua-fogo

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