selene

eu gostava de saber que havia um lado da lua que ninguém conhecia. na minha cabeça era um mistério composto por uma beleza previsível. o outro lado da lua era uma coisa que já se sabia mesmo sem nunca ter sabido e por isso mesmo não era essa coisa e era essa coisa, repetindo eternamente um paradoxo branco, acinzentado, esburacado. quando pensava na lua e …

o sol dentro do sol

uma sala lotada. uma sala grande e lotada.todos os lugares estavam ocupados. os para sentar e os para ficar em pé. curiosamente, o ar não estava abafado nem havia odores desagradáveis. também não tinha muito barulho. vozes baixas e contidas. o vão central da sala que forma um quadrado oco que começa no andar de baixo e vai até o andar de cima deve contribuir …

paisagem

toda vez que começo um novo documento no word ele abre em modo paisagem. não importa o que eu faça, como tente configurar, todas as regras, dicas, burlas, providências… não importa nada. neste caso, não é uma questão de incompetência tecnológica minha, não existe o que torne possível iniciar um arquivo novo no modo retrato. os antigos tudo bem, eles obedecem a suas configurações de …

gratilibrear

meus amigos conhecem a linguagem do amor. conhecem tanto que inventam verbos para decodificar o que o idioma não traduz. uma das coisas que mais sentia falta quando não morava aqui era poder arrumar a casa para receber os amigos. jurei, com unhas e dentes, que quando estivesse de volta não passaria um mês sem ter a mesa coalhada de gente. assim é. assim tem …

não faço nada

estou testando uma nova resposta. há algum tempo tenho pensado sobre a relação entre a ocupação, a profissão e o que as pessoas representam, como são interpretadas.tive vontade de fazer uma pesquisa para descobrir quando as pessoas passaram a significar o que fazem para viver. depois desisti. no meio disso, lembrei do Bartleby, e sorri lamentando que ele não era nada, nadinha, além d’O escrivão. …

só por hoje

todas as manhãs, quando sento na varanda para o café, penso no desafio sem fim de ser uma pessoa melhor.só por hoje, repito.e tento me livrar dos preconceitos, dos julgamentos, dos estereótipos. tento, só nesta quinta-feira, e nenhum dia a mais, respirar fundo e esquecer que acho que fui vítima de injustiças de ordens diferentes. planejo, apenas para as próximas horas, não querer perdoar nada …

ipês

no giro do planeta, estou de volta com ipês amarelos espalhados pelo chão. parece que o inverno vai embora. o frio.a solidão. como num anagrama, desboto as letras e com inverno reconstruo ver, nervo, reino e rio. penso nas rimas, no caderno, no interno, em tudo aquilo que foi subalterno a essa estação difícil e perigosa.reconstruo, uma a uma, as lembranças dos frios. o frio …

ruído no café

por curiosidade e limitação, uma vez li o resumo de um estudo científico que versava sobre os ruídos nas UTIs. o texto propunha investigar a relação de barulhos gerados por aparelhos, passos e vozes com o estresse e a lentidão na recuperação. só li o resumo e o índice. e por essas informações concluí que os ruídos não ajudam em nada o corpo. a mente …

deu praga no meu capim

me sinto lutando contra o Atlântico inteiro, com água na altura do quadril, sabendo que a próxima onda é forte e ainda assim estou despreparada. ando por aí com a espinha ereta, meu queixo aponta para o horizonte, dou risada, reconheço as belezas do caminho e pequenas alegrias cotidianas. mas não está fácil. é como se eu estivesse dentro daquela onda que mistura espuma e …

gentileza

gritos.sempre me foi perturbador ouvir gritos. entro num estado emocional difícil. minhas mãos denunciam o tremor do corpo, meu coração acelera, meus olhos mareiam, a carótida pulsa violentamente, não consigo falar.a ansiedade convive com a angústia. fico também imensamente triste. perco o poder de julgamento e vivo como se fosse a única experiência possível. essa cadeia de alterações dura horas, às vezes mais de 24. …

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