ultimamente tenho pensado muito em algumas palavras. palavras que acho que não existem e que a gente fica repetindo por aí. ou que existem, mas damos sentido diferente, como quando uma pessoa quer dar muita ênfase a alguma coisa ou situação e usa literalmente – antes isso me irritava um pouco, mas agora, percebo que a palavra está naquela fase de transição, mudando seu significado. …
o VAR é um banho de água fria, umas algemas na emoção, um empata com V maiúsculo. é estranho gritar gol, quase comemorar, parar, esperar, esperar, esperar e depois gritar gol de novo e comemorar de novo como se fosse uma explosão espontânea. detesto o VAR! no intervalo entre uns jogos e outros, fiquei pensando sobre aquela teoria de que o que não gostamos no …
acordei antes de hoje. todos os dias acordo muito cedo. às vezes fico deitada, imóvel, olhos fechados e lembrando do sonho da noite. noutras, me grudo no telefone atrás das mesmas notícias. nos dias melhores, coloco música e fico ouvindo bem baixinho, como se ela, a música, fosse feita para mim. hoje, música. é seu vestido cor de maravilha nua / ainda moro nesta mesma …
eu gostava de saber que havia um lado da lua que ninguém conhecia. na minha cabeça era um mistério composto por uma beleza previsível. o outro lado da lua era uma coisa que já se sabia mesmo sem nunca ter sabido e por isso mesmo não era essa coisa e era essa coisa, repetindo eternamente um paradoxo branco, acinzentado, esburacado. quando pensava na lua e …
uma sala lotada. uma sala grande e lotada.todos os lugares estavam ocupados. os para sentar e os para ficar em pé. curiosamente, o ar não estava abafado nem havia odores desagradáveis. também não tinha muito barulho. vozes baixas e contidas. o vão central da sala que forma um quadrado oco que começa no andar de baixo e vai até o andar de cima deve contribuir …
toda vez que começo um novo documento no word ele abre em modo paisagem. não importa o que eu faça, como tente configurar, todas as regras, dicas, burlas, providências… não importa nada. neste caso, não é uma questão de incompetência tecnológica minha, não existe o que torne possível iniciar um arquivo novo no modo retrato. os antigos tudo bem, eles obedecem a suas configurações de …
meus amigos conhecem a linguagem do amor. conhecem tanto que inventam verbos para decodificar o que o idioma não traduz. uma das coisas que mais sentia falta quando não morava aqui era poder arrumar a casa para receber os amigos. jurei, com unhas e dentes, que quando estivesse de volta não passaria um mês sem ter a mesa coalhada de gente. assim é. assim tem …
estou testando uma nova resposta. há algum tempo tenho pensado sobre a relação entre a ocupação, a profissão e o que as pessoas representam, como são interpretadas.tive vontade de fazer uma pesquisa para descobrir quando as pessoas passaram a significar o que fazem para viver. depois desisti. no meio disso, lembrei do Bartleby, e sorri lamentando que ele não era nada, nadinha, além d’O escrivão. …
todas as manhãs, quando sento na varanda para o café, penso no desafio sem fim de ser uma pessoa melhor.só por hoje, repito.e tento me livrar dos preconceitos, dos julgamentos, dos estereótipos. tento, só nesta quinta-feira, e nenhum dia a mais, respirar fundo e esquecer que acho que fui vítima de injustiças de ordens diferentes. planejo, apenas para as próximas horas, não querer perdoar nada …
no giro do planeta, estou de volta com ipês amarelos espalhados pelo chão. parece que o inverno vai embora. o frio.a solidão. como num anagrama, desboto as letras e com inverno reconstruo ver, nervo, reino e rio. penso nas rimas, no caderno, no interno, em tudo aquilo que foi subalterno a essa estação difícil e perigosa.reconstruo, uma a uma, as lembranças dos frios. o frio …