só por hoje

todas as manhãs, quando sento na varanda para o café, penso no desafio sem fim de ser uma pessoa melhor.só por hoje, repito.e tento me livrar dos preconceitos, dos julgamentos, dos estereótipos. tento, só nesta quinta-feira, e nenhum dia a mais, respirar fundo e esquecer que acho que fui vítima de injustiças de ordens diferentes. planejo, apenas para as próximas horas, não querer perdoar nada …

ipês

no giro do planeta, estou de volta com ipês amarelos espalhados pelo chão. parece que o inverno vai embora. o frio.a solidão. como num anagrama, desboto as letras e com inverno reconstruo ver, nervo, reino e rio. penso nas rimas, no caderno, no interno, em tudo aquilo que foi subalterno a essa estação difícil e perigosa.reconstruo, uma a uma, as lembranças dos frios. o frio …

ruído no café

por curiosidade e limitação, uma vez li o resumo de um estudo científico que versava sobre os ruídos nas UTIs. o texto propunha investigar a relação de barulhos gerados por aparelhos, passos e vozes com o estresse e a lentidão na recuperação. só li o resumo e o índice. e por essas informações concluí que os ruídos não ajudam em nada o corpo. a mente …

deu praga no meu capim

me sinto lutando contra o Atlântico inteiro, com água na altura do quadril, sabendo que a próxima onda é forte e ainda assim estou despreparada. ando por aí com a espinha ereta, meu queixo aponta para o horizonte, dou risada, reconheço as belezas do caminho e pequenas alegrias cotidianas. mas não está fácil. é como se eu estivesse dentro daquela onda que mistura espuma e …

gentileza

gritos.sempre me foi perturbador ouvir gritos. entro num estado emocional difícil. minhas mãos denunciam o tremor do corpo, meu coração acelera, meus olhos mareiam, a carótida pulsa violentamente, não consigo falar.a ansiedade convive com a angústia. fico também imensamente triste. perco o poder de julgamento e vivo como se fosse a única experiência possível. essa cadeia de alterações dura horas, às vezes mais de 24. …

panapaná

sinto uma calma exuberante quando me sento na varanda e olho as plantas. são doze vasos de tamanhos variados e lutas diferentes em cada um. metade deles estão juntos, concentrados, vivendo como se fossem um bairro com casas construídas com arquiteturas independentes. os outros se espalham convenientemente preenchendo vazios. quando viajei, o pacová morava na sala e a ora-pro-nóbis era uma pequena árvore espinhenta que …

camadas na parede da sala

“A casa supostamente me pertence. Já paguei por ela, deveria ser minha. Mas não. Na verdade, uma casa nunca pertence. Escapa à propriedade. Ela é do tempo. É uma instalação, em todos os sentidos da palavra. Instala-se a mulher, os filhos e o dinheiro”.Marguerite Duras calha entupida, rufo quebrado, telhas deslocadas e rachaduras no telhado formaram o combo para a infiltração na parede, no …

embora

eu não pude dar o último passeio pela cidade. caminhei o penúltimo e o antepenúltimo e ainda um anterior. nessas três vezes tive o cuidado para que meus passos fossem de despedida. um pé, outro pé, olhar para o sino da igreja. três metros e reparar bem nos cafés em volta da praça. um desvio e o mercado. um pouco mais à esquerda e o …

andar pelas ruas

ir a museus não é um ponto forte nas minhas escolhas de passeios. ao contrário, esse tipo de visita sempre foi feita de forma bastante objetiva, com um propósito quase que prosaico ou reducionista, chegando ao ponto de ter viagens inteiras planejadas a partir da vontade de conhecer determinadas obras ou de já ter ido a Paris 12 vezes e não conhecer o Louvre por …

burocraticamente contando

andei por Guimarães num dia triste. recusei comprar guarda-chuva para enfrentar a garoa fina. neguei também me abrigar num café, numa loja, numa marquise. entre mim e a água há o mundo. olhei para todos os ímãs de geladeira de todas as lojinhas. pensei que se tivesse muita atenção poderia encontrar o especial que iria me dizer sobre aquele dia estranho. não. fui a Guimarães …