Sobre Curitiba Arquivo

do que é vago, incerto e incompreensível

poucas pessoas entendem do que é feita uma escritora. quase ninguém. ninguém. ninguém além de mim. a frase correta é assim: ninguém imagina o percurso insano que sou obrigada a percorrer para chegar até aqui e batucar esse monte de inutilidades.  ninguém sabe, por exemplo, que todas as noites acordo com frio. e que isso é necessário para que eu cumprimente a madrugada; para que …

o novo

estico as pernas embaixo da mesa do café e estranho a vontade dos músculos, para sempre eles me pedem encolhimento, retração, joelhos dobrados, coluna curvada, olhos nos sapatos. respiro fundo e percebo a felicidade do pulmão. sempre castigado: fumaça, poeira, ares curtos, todos os ácaros. entendo a vontade do corpo, essa hora que marca o grito e o tirar, peça por peça, de toda a …

o sol levanta

do quarto, da cama, deitada, vejo o sol nascendo. antes que ele boie, provoca as cores, refaz o céu, anuncia a estreia.  penso, quieta, que o dia que começa terminará sua volta antes que eu o compreenda, porque são assim todos os dias, generosos e injustos, coloridos e misteriosos. reluto sair da cama porque, presa na contradição, quero mais tempo. e deixo que os ponteiros …

coleção de passado

resolvi dar nomes às rugas. cada vinco, a tradução de sua causa. todos eles, claro, obedecem ao conjunto da idade e seria mais honesto creditar à certidão esse rosto que se precipita em sinais irrecuperáveis. mas nomear minhas linhas com os nomes do meu passado faz minha distinção no mundo. diz quem eu sou, como cheguei até aqui. assim sou única. tenho rugas que se …

parar de escrever

pensei em passar um tempo sem escrever. não traçar nenhuma linha, não conjugar, não tratar de achar os cognitivos para minhas ansiedades. deixar que as letras fiquem em caixas, trancadas, descoladas, misturadas e sem sentido. fiz um plano de leitura. um mergulho em canais fundos em que tenho boiado com certa displicência porque sempre me ocorre alguma coisa para dizer. e quando nada me perturba …

cuidado, frágil

não falo da fragilidade da flor: pétalas suaves tez macia cores de festa espetáculo de divisão não digo da delicadeza do poema: versos de amor voos de aves ritmo conforme o tema palavras em canção me refiro à vulnerabilidade da bomba, o fio errado, o passo em falso o toque na artilharia e a grande explosão.

disléxica

tenho um traço de dislexia.  ele aparece aqui e ali em textos pouco revisados e em leituras que arrastam parágrafos num vaivém demorado até retomar, ou achar, o fio da meada e seguir. não há muito que eu possa fazer em relação a isso. já tentei algumas providências que não alcançaram o sucesso esperado.  medidas contrárias que reforçam o problema tenho aos montes.uma delas é um vício recente: …

fermé

um dia a porta fecha ninguém entra nada sai a tranca bate pesada sete mil chaves nenhuma brecha. um dia o trinco cai com força suspende o mundo cerra histórias chute na trave. um dia o cadeado bate eterno ergue muros estanca veias  veda janelas no porão, as memórias.  um dia a fechadura não gira nenhuma volta nada entra  ninguém sai arrebentam-se correias a vida …

mau humor

é óbvio, tenho mau humor. não preciso provar nada, mas escrevo nesse estado alterado só para dar mais credibilidade às palavras.bílis no comando. muitas coisas alteram meu humor. muitas. várias. a maioria. disfarço para poder viver em sociedade. fui educada para ser gentil e agradável “porque ninguém tem nada com isso se você tem um problema, Adriana”. e se eu tiver vários, muda alguma coisa?  trivialidades me deixam de …

Pin It on Pinterest