meus amigos conhecem a linguagem do amor.
conhecem tanto que inventam verbos para decodificar o que o idioma não traduz.
uma das coisas que mais sentia falta quando não morava aqui era poder arrumar a casa para receber os amigos. jurei, com unhas e dentes, que quando estivesse de volta não passaria um mês sem ter a mesa coalhada de gente.
assim é. assim tem sido.
sem qualificações gastronômicas ou disciplina para seguir à risca receita já testada, acolho a criatividade como prato principal.
invento uma coisa aqui outra ali para os momentos.
tem dado certo porque é a casa, estrutura sólida e virtual, o que eu tenho realmente para oferecer. entrego diferentes significados de refúgio e consideração pelo menos uma vez por mês e, pelo menos uma vez por mês, sou abastecida com consideração e refúgio.
solitários e grupos diferentes circulam por aqui.
uma das trupes que amo estar reunida é de gente bastante criativa.
gosto de ouvi-los e observá-los com a mesma admiração de sempre. reconheço a sorte, a grande sorte, de poder pensar neles, contabilizar as qualidades, imaginar o que cada um me responderia caso decidisse contar umas coisas.
tantos anos depois, é, ainda, emocionante vê-los e escutá-los.
são essas pessoas os linguistas de um idioma que ainda não tem nome, mas que provavelmente seria aquele que iríamos falar se, quando muito velhos, colocássemos em prática a ideia de morarmos juntos numa espécie de comunidade – algumas vezes falamos sobre isso. acho que jamais ficaremos velhos a esse ponto, temos, todos, imensas obrigações que não nos permitem a aposentadoria numa praia qualquer.
meus amigos e amigas inventam verbos.
eles têm esse ato falho que desemboca na construção de palavras que dizem o que querem dizer. inventaram, por exemplo, os verbos adjar e proxidenciar, que o Vicente catalogou assim:
Adjar (v.t.)
Adiar um compromisso remarcando-o para uma data próxima, adjacente (do latim ad, “junto a” e jacere, “jazer”).
Proxidenciar (v.)
Fusão das palavras próximo (do latim proximus, que está perto, imediato) e providenciar (do latim providere, ver antes, olhar para frente, prever). Significa providenciar algo imediatamente.
como num anagrama, separei as letras de gratidão e liberdade para encontrar um verbo que pudesse conjugar o tempo inteiro com eles e elas. o mais próximo que consegui chegar dessas pessoas maravilhosas e do significado que têm em minha vida foi o gratilibrear, algo que tem a ver com agradecer de um jeito que abre espaço para o outro ser quem é.
porque é assim que me sinto diante de nossas semelhanças e diferenças, numa espécie concertina que toca a música que todos e cada um sabe muito bem.
