ipês

no giro do planeta, estou de volta com ipês amarelos espalhados pelo chão.
parece que o inverno vai embora.
o frio.
a solidão.
como num anagrama, desboto as letras e com inverno reconstruo ver, nervo, reino e rio.
penso nas rimas, no caderno, no interno, em tudo aquilo que foi subalterno a essa estação difícil e perigosa.
reconstruo, uma a uma, as lembranças dos frios.

o frio castiga o meu pai. ele tem todos os sofrimentos e mais o frio.
meu pai tem todos os frios do mundo e ainda outros sofrimentos.
eu queria que as flores dos ipês amarelos cobrissem o seu corpo e o seu espírito.
queria que os ipês amarelos, rosas, roxos e até os brancos o aquecessem num colorido confortável e que ele pudesse ver cada nuance, logo ele que não enxerga além dos tons de cinza por causa de um outro problema.

os ipês são o recomeço.
toda vez que penso num ipê, penso num dia de domingo. e sempre que um domingo azul me recorta a memória, lembro que era pela manhã do sétimo dia que nós, eu, meu pai e meus irmãos, fazíamos coisas. íamos à pracinha, passeávamos de carro, montávamos uma geringonça qualquer em casa.
um colorido, salpicado em tons de cinza.

nesse pequeno reino da minha infância não fazia frio, meu pai sabia correr e eu era generosa e amável.



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