eme ene

acordei antes de hoje.
todos os dias acordo muito cedo. às vezes fico deitada, imóvel, olhos fechados e lembrando do sonho da noite. noutras, me grudo no telefone atrás das mesmas notícias.
nos dias melhores, coloco música e fico ouvindo bem baixinho, como se ela, a música, fosse feita para mim.

hoje, música.

é seu vestido cor de maravilha nua / ainda moro nesta mesma rua / como vai você? / você vem?
agradeço muito por ser brasileira e entender o indizível. cada palavra (as ditas e as não cantadas) se derrama dentro de mim. da janela, já afastada, vejo um céu cinza se compondo com os primeiros raios.
o teto vai ficando claro. e uns primeiros ruídos começam a aparecer.

na canção do vento, não se cansam de voar.
alguém buzinou lá fora, alguém sempre buzina. é uma prática dos motoristas do prédio da frente ao saírem da garagem avisar que estão a caminho da calçada.
mesmo que isso seja às seis da manhã.

casa da palavra, onde o silêncio mora / brasa da palavra, a hora clara, nosso pai / hora da palavra, quando não se diz nada.
percebi que quanto mais ouvia música, mais queria ouvir. fiquei com saudade do tempo que existia rádio e, ao apertar o botão, eu trocava minhas vontades pelas surpresas pensadas por outras pessoas.

no ouro da paixão / na febre da paixão / que estão em mim.
lembrei de quando trabalhava no rádio. eu me enfiava todos os dias dentro daquele aparelhinho para libertar vozes e mensagens.
isso era bonito.
entendia tudo o que eu fazia. não sabia das coisas alheias. subia e descia escadas. tinha fones de ouvidos. e testemunhava pequenos milagres todos os dias.

o tempo cravou em mim essa alegria de ouvir e interpretar coisas que só quem nasceu aqui sabe.
agradeci pela vida, a voz, a composição e a interpretação de Milton Nascimento.
fiquei feliz e levantei para tomar café.
o medo em minha vida nasceu muito depois / descobri que minha arma / é o que a memória guarda dos tempos da Panair.

quer comentar? não se acanhe.