estou testando uma nova resposta.
há algum tempo tenho pensado sobre a relação entre a ocupação, a profissão e o que as pessoas representam, como são interpretadas.
tive vontade de fazer uma pesquisa para descobrir quando as pessoas passaram a significar o que fazem para viver. depois desisti.
no meio disso, lembrei do Bartleby, e sorri lamentando que ele não era nada, nadinha, além d’O escrivão. não lembro se tinha idade, do passado, de alguma vontade ou preferência. eu só conheci Bartleby porque ele preferiu não fazer; caso fizesse, caso continuasse fazendo, jamais saberia de sua existência.
o final desse herói (anti-herói?) aconteceu quando deixou de ser empregado. de escrivão passou a nada, quando chegou a nada, morreu. pode ser que ele tenha alcançado sua glória na morte, não sei, pode ter sido o encontro com o absoluto, assim como quando João Gilberto treinava cantar O Pato muito, muito, muito baixinho, almejando o silêncio.
quando me fazem a estranha pergunta, o que você faz?, todas as vezes, todas as vezes mesmo, reconheço um número imenso de coisas que vêm embutidas nela. a resposta jogará peças de Lego para que minha história seja montada. cada resposta leva um tipo de conceito, de respeito, de explicação e de relação com o perguntador.
isso é um pouco enlouquecedor.
e é demais pra mim.
resolvi responder que não faço nada.
primeiro foi com o motorista. ele passou por vários estágios de desconforto na tentativa de não me deixar desconfortável. desde me dizer que é bom descansar de vez em quando até que logo eu conseguiria um emprego “porque se vê que você é capacitada”. ele concluiu que estou desempregada – e procurando emprego.
repeti a resposta, num tom natural e sem gravidade, para uma conhecida (desculpe contar, J.). ela quis me consolar, dizendo que eu fazia muita coisa, que já fiz muita coisa, que escrevi isso aquilo e aquilo outro… tentou me convencer de certa utilidade no mundo.
nas duas vezes percebi a vontade de explorar a questão financeira. o uber foi mais direto; minha conhecida manteve a discrição num misto de pudor e medo que lhe pedisse uma grana.
lembrei do guerreiro menino, do vendedor de laranjas, do vendedor de caranguejos e do namorado da Izaura. lembrei dos pescadores, do enxadão da obra e da empacotadeira das Casas Bahia. lembrei do Pedro, da canção do sal e do operário em construção.
lembrei de uma multidão de gentes que utilizam o espaço entre nascer e morrer para compor honra através do trabalho.
os velhos, os aposentados estão perdoados, podem não fazer nada.
mas não têm utilidade.
e como não têm utilidade, são desprezados.
fazer nada é igual a nada a fazer.
(este texto continuou, mas estampei até aqui porque mergulhei nuns papos que versam sobre descartabilidade, corpos não rentáveis e outras precariedades que talvez precisassem de Bourdieu ou de Goldenberg ou de Butler.)
