paisagem

toda vez que começo um novo documento no word ele abre em modo paisagem.
não importa o que eu faça, como tente configurar, todas as regras, dicas, burlas, providências… não importa nada.
neste caso, não é uma questão de incompetência tecnológica minha, não existe o que torne possível iniciar um arquivo novo no modo retrato. os antigos tudo bem, eles obedecem a suas configurações de layout e mantêm-se em pé, prontos para o que der e vier.

com isso, minha rotina ao começar a escrever sempre passa por ajustar este detalhe. sair da paisagem para o retrato é meu pontapé inicial para a escrita.

antigamente, quando isso me aborrecia, foi que iniciei as tentativas de solução. percorri os caminhos óbvios numa escalada de complexidades. comecei no Google (porque sou tradicional), fui para o GPT, assisti vídeos do YouTube, escrevi para um conhecido que entende desses parangolés, consultei os fóruns da Microsoft, falei com o pessoal da Apple.
nada.
nenhuma tentativa resultou.
não me conformei. só parei porque não havia mais o que fazer. e também porque passei a me irritar com a resposta maciça, deve ser algum bug, que tinha a intenção de sublinhar minha ignorância (por não saber direito o que é um bug) e disfarçar a ignorância dos interlocutores (que também não sabem direito o que é um bug).
me entreguei. abro um documento novo e, sem questionar, rearranjo o layout para o modo retrato.

só hoje, meses depois, alguns cabelos brancos a mais e umas dores na mão direita de tanto dar socos na mesa, é que despertei.

sou uma especialista em retrato, em autorretrato.
é o que eu faço. fico esmiuçando até as últimas consequências os mais diferentes fenômenos que me atravessam para compreender o mundo e tentar criar um ponto de vista que se origina na experiência.
tenho como principal capital minha vida inteira em suas mais diferentes variações para isso.

começo no retrato para compreender a paisagem.
vou fazer um exercício diferente.

tentarei investir na paisagem, assumi-la, questiona-la, nega-la, possibilita-la… para entender o retrato. não sei o quanto isso será possível e o tanto que negarei Freud, mas é um movimento diferente para este ano – que começo, obviamente, fracassando.

feliz 2026!

quer comentar? não se acanhe.

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