por curiosidade e limitação, uma vez li o resumo de um estudo científico que versava sobre os ruídos nas UTIs. o texto propunha investigar a relação de barulhos gerados por aparelhos, passos e vozes com o estresse e a lentidão na recuperação.
só li o resumo e o índice. e por essas informações concluí que os ruídos não ajudam em nada o corpo.
a mente a gente já sabia. separo aqui corpo e mente, como se isso fosse possível, só para evidenciar que o corpo sofre de forma autônoma (?) com barulheiras desagradáveis.
o silêncio também não é uma condição fácil de suportar. primeiro que é raro, raríssimo. há sempre qualquer coisa a dividir o ambiente com a gente a zunir, estalar, tintilar, que é o mesmo que tilintar – descobri agora.
depois, porque na condição dos instantes milagrosos do silêncio o corpo também reage.
durante o silêncio há a manifestação do zumbido no ouvido, na cabeça, não sei bem. e há, pelo menos no meu caso, uma dificuldade com a respiração e uma pressão esquisita que não dá para saber se é na cabeça ou no peito.
(martelo, bigorna, estribo, trompa de eustáquio… como são engraçados os nomes ligados ao sistema auditivo)
entre barulho e silêncio, há uma série de nuances que melhoram a vida. música, passarinhos, rio, vento nas árvores, chuva, arrebentação na praia, sininhos, conversas, sussurros, depende de cada um, de cada uma.
a audição é um estímulo interessante ou um descanso necessário ou um tormento sem fim.
estou sentada num café.
um lugar de nome italiano e endereço francês em que a combinação cafezinho + pão de queijo leva para sempre uns 50 reais – resumo assim para não precisar do desprazer de descrevê-lo.
eu não tenho um medidor de decibéis.
(pausa)
baixei um medidor de decibéis no meu telefone. a média durante o tempo em que o deixei marcando, uns dois minutos, foi de 78 decibéis.
a média.
78 decibéis.
na minha forma de estar no mundo, não é aceitável um lugar oferecer esse tipo de desconforto.
(outra pausa)
fiz a reunião que precisava fazer, peguei minha bolsa, recolhi meus silêncios e fui embora para nunca mais.
deixei para trás, trancada naquela atmosfera ruidosa, a armadilha de as vezes concordar com a ideia de que não preciso ser ouvida.
ficou com o café, o pãozinho e os decibéis excessivos a paciência para lidar com as ondas que reverberam na violência, de qualquer tipo.
