Sobre Curitiba Arquivo
é o que estou a fazer. descolei um trampo em uma vindima. passo minhas horas de camponesa a encher caixas com uvas que serão vinho. a uva e o vinho. entre os mil processos que acontecem entre uma ponta e outra, estou eu, inserida nesse contexto surpreendente que me exige força e bom humor, atenção e fone de ouvido, tesoura e chapéu. muitas coisas passam …
detergente, sabonete, sabão para a roupa e outras coisas do gênero estavam na minha lista do mercado.essas anotações não diziam sobre a qualidade da limpeza da casa nem da minha higiene pessoal. não se tratava do que faltava em meus armários ou em minha despensa, as prateleiras estavam lisas e de café a arroz, de biscoito a ovos, era preciso entupir um carrinho. mas, na …
a caixinha de correio aqui de casa é do tipo esculpida na pedra do muro. um buraco escavado e moldado que de um lado avisa ao carteiro e de outro tem uma porta que pode, se for o caso, ser trancada até com cadeado. é super bem feitinha e gosto de pensar como consegue, com simplicidade e competência, resolver o negócio de correspondências. faça chuva …
um campo verde. verdinho. e tem aquele azul por cima mais o dourado e os outros tons das árvores que emolduram o despenhadeiro ao fundo.lá embaixo, o rio, as pedras, e todas as águas que rumam, dizem, para o mar. a parede de pedra sustenta torre, sino, silêncios e dores de vários tipos.restos de corpos descansam a sete palmos de onde piso.pelo aspersor, a frescura …
faço trocadilhos entre os consertos da vidae os concertos de sábado à noitee misturo o café de todo diacom o pontual das onze, sem-açúcar-com-afeto-por-favor.ouço o violão,a corda miacordohá cordacordacardocardíacomi, a cordami, o cárdio miocárdio – trocadilhos dedilhados no violão…
por sorte moro em um lugar com muitas janelas e delas posso observar os mais diferentes acontecimentos. daqui vejo gatos que se enfrentam sem a força física. ocupam a voz para impor o vigor em duelos que duram muito tempo. estáticos se dizem sobre território, domínio, limites. frutas, silenciosas frutas, esverdeiam, amarelam, avermelham-se e, doces e maduras, se espatifam na calçada para a sorte de …
estou em Portugal. um endereço novo para a velha carcaça que ainda consegue se jogar em sonhos mal planejados e planos super extravagantes. aqui – cercada de montanhas que não sei os nomes, de flores que não obedecem a chuva e rios que se desesperam em correntezas disformes – descubro, todo dia, uma nova urgência. abarroto os dias com urgências. antes de dormir, olhos vidrados …
não fume, me dizem. não preciso da nicotina, do tabaco, das mais de não sei quantas substâncias e venenos. não preciso do câncer, nem do enfisema. detesto o fétido nas roupas e na pele. aqueles minutos de nada; a brasa e o cinza; o girar do isqueiro, o clique e a chama. a fumaça. e sobretudo o silêncio. o momento de silêncio e solidão, este …
estava na cama, meio dormindo, meio acordada, cogitando minha existência, quando me ocorreram alguns pensamentos. tudo muito prosaico. coisas como levantar, ligar o aquecedor, tomar banho, café… este é um resumo. meu jeito de pensar é muito detalhado. na cama vou fazendo os planos de quanto tempo terei antes de entrar no banho e a forma de calcular é exaustiva e para narra-la, não sei …
às vezes é difícil saber que as coisas estão acontecendo.o gerúndio, este tempo leve e eterno, sem começo nem fim, que só está, um dia depois do outro; que desafia o que é passado, o que é futuro, que desafia o presente, embrulha o entendimento.o gerúndio prega peças. é zombeteiro. faz a gente falar coisas como metade do ano passou, já é natal, esta foi …