Sobre Curitiba Arquivo
gosto desses trovões que despencam do céu, rasgam o murmurinho da cidade com o estrondo que dispara o coração, silêncio de meio segundo, e fazem lembrar que tem roupa no varal, embora eu não tenha quintal. rápido, as janelas estão abertas. esse prenúncio de que a chuva cairá forte e logo estará a correr deitada, afogando meio-fio, lavando o asfalto. esse destino de cidade encharcada. …
não dá para ficar. eu não consigo. é da minha natureza ir, seguir, sair. sim, é também voltar. nesse ano visitei Paris, Zurique, Londres, Antonina, Paranaguá, Buenos Aires… por conta do movimento, perdi o verão. caminhei contra o favorito, a terra girava pra um lado e eu a andar para outro. casacos, calças e meias, muitas meias. chuva, frio e todos os tons de cinza. …
Cris querida, o tempo por aqui anda curto. para o amor, para as conversas, para a observação dos pássaros e pôr do sol. por causa de você, menina, ontem vi a lua. ainda de dia, ainda no azul; toda branquinha e quase inteira. um sopapo na cara dos fracos… ando com vontade de conversar. queria uns papos leves, coisas de música e poesia, de praça …
sinto esse calorzinho de agosto. está no ar, nas flores amarelas dos ipês, no sol, na roupa de cama com uma coberta a menos. está na peça que há muito não desfila pelas ruas tirada hoje do guarda-roupa. está nesse humor que se renova e no Mozart que gira lindo, animado, allegro, mas não muito… gostoso poder esticar o corpo que estava todo atrofiado, encolhido …
das coisas que estão em mim e detesto, a timidez, decerto, é o traço mais gritante. tanto, que muitas vezes trato de vestir uma couraça que me transforma no oposto para que eu continue por dentro quieta e protegida. mas é marca que atrapalha, às vezes impede o fluir das experiências. é um não-estar de verdade em situações. máscara que tranca o fôlego. fico muito …
marquei almoço. utilizei o indecente horário do meio-dia para que tivéssemos tempo para os belisquetes antes de sentarmo-nos à mesa. meu pai é uma pessoa reservada. ele é incapaz de perguntar qualquer coisa que fira o que julga ser o limite da privacidade, às vezes sofre em silêncio por querer saber pormenores, mas nunca comete indiscrição. suas coisas, ele só conta se forem perguntadas. demorei …
há qualquer coisa bem diferente no quartinho nas últimas semanas. minha facilidade com a escrita convidou o trabalho para uma longa dança e esqueceu que a música é um lance também, e principalmente, do prazer e de outras coisas que se parecem com ele. escorrego os dedos pelo teclado e em segundos sou absorvida por assuntos que não são meus, que se espalham em mim …
dia de início. regime, trabalho, planos, academia. novo curso. gosto de segunda-feira. não sei explicar direito, mas me sinto bem com a chegada de nova semana, tenho a impressão que a vida abre um grande portal para que tudo tenha outra chance. não me importo com os dias que ficaram no passado, olho para o calendário e penso nesse réveillon fora de época, refaço a …
nômade: diz-se daquele que não tem habitação fixa eu sou uma itinerante que riscou nos limites da cidade as possibilidades de endereço. embora tenha paradeiros em paraísos longe daqui, não consigo que a enxada do destino cave fundo a ponto de desprender minhas raízes. Curitiba. volta e meia reúno as tralhas e me mudo. já morei em tantas casas que nem me lembro mais. e …
um dia desses pensei em fazer um lance desses ao vivo que o Facebook inventou. assisti umas pessoas e achei interessante a coisa da interatividade. uma pessoa de um lado, outras de outro, a falar meio coletivamente… aos poucos, feito uma garoa fina, foram chegando as advertências para eu desistir da ideia. primeiro pensei que escrevo, logo não falo. seria um tiro no pé trocar …