ultimamente tenho pensado muito em algumas palavras. palavras que acho que não existem e que a gente fica repetindo por aí. ou que existem, mas damos sentido diferente, como quando uma pessoa quer dar muita ênfase a alguma coisa ou situação e usa literalmente – antes isso me irritava um pouco, mas agora, percebo que a palavra está naquela fase de transição, mudando seu significado.
como não sou linguista, tenho irrevogável licença para tratar desse assunto do jeito que ele aparece na minha cabeça e de como interpreto as cronologias. amém!
a primeira delas, a que tem me tomado muitos anos de visitação, que volta e meia me atormenta, me faz empenhar horas de pensamento e abriu este novo capítulo na minha vida é desilusão.
desilusão existe? o que significa?
abro um parêntese para dizer que toda vez que falo esta palavra em voz alta, mil paulinhos da viola tomam conta e ela sai de mim cadenciada no samba Dança da Solidão. fecho parêntese e volto para o texto.
vamos começar pelo prefixo -des.
des alguma coisa normalmente ajuda a compor uma oposição, uma falta, uma negação. alguns exemplos que tornam essa ideia bem explicadinha: desarmonia, desconfiança, desleal, desencantar. isto é, desarmonia é o contrário de harmonia; desconfiança, de confiança e assim por diante.
des alguma coisa também pode ser um tipo de separação, como descascar uma laranja ou desenterrar um tesouro.
de qualquer forma, o des, na maioria, na grande maioria das vezes, é um prefixo que nega, discorda, opõe. o des esculhamba a palavra e a torna contrária. o des não tem escrúpulos com a nascença de um termo.
vamos à ilusão, um substantivo feminino cheio de melindres e perigos.
em 2.500 antes de Cristo, havia a palavra leidh, uma indo-européia que significava brincar ou jogar. era assim, uma palavra inocente e boa.
a palavrinha brincou feliz até trezentos anos antes de Cristo e conheceu o latim, se transformou em ludus (que também era jogo e diversão) e deu origem ao verbo illudere, que já tinha uma carga mais pesada, envolvia zombar de alguém, brincar com alguém de forma irônica. e de illudere nasceu o substantivo illusio, que era uma figura de estilo política, usada para fingir que apoiava a ideia de um adversário só para o ridicularizar em público.
o Império Romano era mesmo bastante perspicaz.
tá seguindo o fio?
brincar -> diversão -> zombaria -> ironia.
cai Roma, sobe o cristianismo, finca-se a Idade Média e illusio perde a força política e passa a significar um erro de percepção; que podia tanto ser do tipo físico, como por exemplo, ver coisas que não existem, como por outro mais, digamos, espiritual, como ser enganado por falsas aparências.
quando o Iluminismo se fez presente, a interpretação mudou e a carga do significado foi amenizada. a palavra ficou mais leve e passou a se misturar com uma espécie de esperança que vem da imaginação. algo suave, tranquilo: um sonho bom, uma esperança em boa hora.
é importante também, lembrar que no meio disso tudo o Latim se dividia e corria de um lado para o outro em ritmos e jeitos diferentes. a última flor do Lácio amputou um L e illusio virou ilusio e depois cravou em ilusão.
mas a grafia é uma coisa e o significado outra.
no século XIX, quando a psicologia e a psiquiatria iniciavam seus passos de uma forma mais estruturada e cientificamente anotada, era preciso diferenciar dois fenômenos: uma alucinação e uma ilusão. resultado: alucinação era ver algo que não existia, aquela coisa ligada a psicoses e ilusão era ver uma coisa que existia, mas que o cérebro interpretava de um jeito diferente – o que, aliás, popularizou o ilusionismo.
Românticos e Realistas nadaram de braçada na literatura do XIX usando o termo ilusão. duas defesas diferentes: sonhos e ideais deveriam ser mantidos e sonhos e ideais eram fraquezas que levariam à destruição do indivíduo.
muito bem. a cronologia nos trouxe até este lugar em que a ilusão é algo que não existe, uma enganação, uma fantasia. é uma promessa que nunca, jamais, se cumprirá. e este é o significado desse substantivo, que não poderia ser ser outro a não ser o abstrato.
acho que posso dar o assunto por terminado. se ilusão é uma coisa que não existe, como é que podemos falar em desilusão se no final das contas a coisa nem existia mesmo?
em outros termos: se eu sou uma pessoa iludida, significa que acredito em uma coisa ou alguém que não é; logo, se eu sou desiludida, continuo no ponto zero: sem ter aquilo ou aquela pessoa que já não era na época da minha ilusão.
em mais um termo: uma desilusão não existe, mas se existisse, poderia ser uma coisa bem boa.
