uma sala lotada.
uma sala grande e lotada.
todos os lugares estavam ocupados. os para sentar e os para ficar em pé.
curiosamente, o ar não estava abafado nem havia odores desagradáveis. também não tinha muito barulho. vozes baixas e contidas. o vão central da sala que forma um quadrado oco que começa no andar de baixo e vai até o andar de cima deve contribuir para esses confortos mínimos num lugar tão insalubre.
de vez em quando, uma das portas que ficam em volta da multidão se abre e chamam alguns nomes.
as pessoas se identificam.
a enfermeira vem, alcança um lenço de papel e pede ordenando olhe para cima e fique imóvel. pinga um colírio e sai sem explicações.
pouco tempo depois, repete. outros nomes, mesmas coisas.
zumbis.
pupilas dilatadas, íris sem controle, olhos vidrados e lacrimejantes.
um batalhão de gente com a retina igual, sem nada. mortos-vivos na sala imensa esperando por exame.
meu pai observa as pessoas e vejo em suas maneiras o que vi durante toda a vida: curiosidade e indiferença, como se fosse possível conciliar essas duas coisas.
ele enxerga bem, os testes para glaucoma não apontam nada, mas ele sempre tem que voltar ao Hospital de Olhos.
quem foi que descobriu que os olhos captam as imagens de cabeça pra baixo?
será que o verde que eu vejo é o mesmo que o de outras pessoas?
quem não enxerga desde que nasceu consegue imaginar imagens?
a retina parece o pôr do sol dentro do sol.
essas são as coisas que eu penso na sala lotada do hospital.
