mudei de casa

mudei de casa. faz uns dez dias. ainda não me acostumei e vira e mexe ando para o lado errado quando quero ir até à cozinha. chego e abro o armário errado para pegar copo e nunca sei onde está o pratinho para bolo. fiz bolo. três em uns dez dias. acho que é porque não tenho panelas e às vezes penso em algum tipo …

briga

apalpar todas as brigas para entender de qual matéria cada uma é feita esmiúça-las, escarafuncha-las, detalha-las chegar à exaustão de todas as emoções e ainda assim não compreende-las tentar livrar-se da culpa carregar toda culpa nas costas justificar as ações para poder continuar refugiar-se dentro do medo tremer, temer, meter tudo num canto do mundo e continuar vivendo como se nada tivesse acontecido.

as coisas do tempo

sentir a brisa da manhã de domingo ter vontade de colocar um vestido florido e caminhar pela cidade pensar no vestido não ter vestido que combine com tênis entender que isso não importa vestir qualquer coisa e calçar tênis de caminhada sentir vergonha rodopiar em frente ao espelho reconhecer o peso da idade lamentar pela juventude que foi embora pensar que ainda sou jovem saber …

horizonte

aprender os pontos cardeais deixar-se guiar por estrelas e saber que o dia, a vida e os amores, nascem sempre no leste. aceitar que o destino é uma longa e monótona reta cercada de caminhos por todos os lados. não pegar atalhos gastar todos os passos tentando chegar ao horizonte, nunca desprezar o horizonte, tratar a caminhada e o horizonte com a mesma importância. saber …

as fatias do cotidiano

nos últimos meses meu tempo está dividido de um jeito semirreligioso. em nenhum outro momento da vida lembro de limites marcados tão claramente. sou, forma imutável, 45% trabalho, 25% reforma da casa, 20% durmo, 10% me revezo entre ficar doente e me recuperar. a minha porção trabalho toma boa parte. passo horas e horas e horas em frente ao computador. não é monótono, só cansativo …

presente

não retornar ao passado mesmo que seja por fotografias pensar no dia de hoje querer estar no dia de hoje aceitar o milagre do dia de hoje. não negar as lembranças quando elas se compõem devagar com delicadeza, donaire. sempre que for possível encontrar beleza na ruga da testa, no branco dos cabelos, naquele vinco perto da boca. e saber, definitivamente, que viver é estar …

desencanar

        A feiúra é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. – Clarice Lispector estou no meio de uma reforma. desenvolvo habilidades conforme a necessidade do dia e vou, em gerúndio, aprendendo sobre assuntos variados. até ontem eu imaginava que a água escorregava pela pia porque eu rosqueava a torneira num sentido – …

sem poesia

evitar as rimas desprezar todas as rimas jogar fora o dicionário de rimas. entender que sentimentos, palavras e ações não combinam entre si e que todas suas consequências sempre são inesperadas a rima é esperada. surpreender. saber que é possível escrever sobre um homem, um pato ou uma casa longe da sequência de palavras. não tentar vestir o poema como quem combina cinto, bolsa e …

memórias

eu lembrava de quando era criança. de um tempo para cá passei a inventar memórias. elas me chegam a partir de coisas que eu ouço. invejo a cabeça dos meus pais, embarco no que contam e finjo que sei do que estão falando. finjo com tanta força que passo a acreditar também. nessa madrugada, entre um soluço e outro, resolvi que tinha uma balança no …

girassol

tentar não pensar em palavras e entender a impossibilidade da meditação construir, sílaba por sílaba, imagens de campos floridos talvez só com girassóis e lembrar de Van Gogh pensar no tormento de Van Gogh sentir a angústia de Van Gogh retornar para imagem dos girassóis e lembrar que na primeira casa com o marido tinha um girassol alto em frente à janela que apontava a …