coleção de passado

resolvi dar nomes às rugas. cada vinco, a tradução de sua causa. todos eles, claro, obedecem ao conjunto da idade e seria mais honesto creditar à certidão esse rosto que se precipita em sinais irrecuperáveis. mas nomear minhas linhas com os nomes do meu passado faz minha distinção no mundo. diz quem eu sou, como cheguei até aqui. assim sou única. tenho rugas que se …

parar de escrever

pensei em passar um tempo sem escrever. não traçar nenhuma linha, não conjugar, não tratar de achar os cognitivos para minhas ansiedades. deixar que as letras fiquem em caixas, trancadas, descoladas, misturadas e sem sentido. fiz um plano de leitura. um mergulho em canais fundos em que tenho boiado com certa displicência porque sempre me ocorre alguma coisa para dizer. e quando nada me perturba …

cuidado, frágil

não falo da fragilidade da flor: pétalas suaves tez macia cores de festa espetáculo de divisão não digo da delicadeza do poema: versos de amor voos de aves ritmo conforme o tema palavras em canção me refiro à vulnerabilidade da bomba, o fio errado, o passo em falso o toque na artilharia e a grande explosão.

disléxica

tenho um traço de dislexia.  ele aparece aqui e ali em textos pouco revisados e em leituras que arrastam parágrafos num vaivém demorado até retomar, ou achar, o fio da meada e seguir. não há muito que eu possa fazer em relação a isso. já tentei algumas providências que não alcançaram o sucesso esperado.  medidas contrárias que reforçam o problema tenho aos montes.uma delas é um vício recente: …

fermé

um dia a porta fecha ninguém entra nada sai a tranca bate pesada sete mil chaves nenhuma brecha. um dia o trinco cai com força suspende o mundo cerra histórias chute na trave. um dia o cadeado bate eterno ergue muros estanca veias  veda janelas no porão, as memórias.  um dia a fechadura não gira nenhuma volta nada entra  ninguém sai arrebentam-se correias a vida …

mau humor

é óbvio, tenho mau humor. não preciso provar nada, mas escrevo nesse estado alterado só para dar mais credibilidade às palavras.bílis no comando. muitas coisas alteram meu humor. muitas. várias. a maioria. disfarço para poder viver em sociedade. fui educada para ser gentil e agradável “porque ninguém tem nada com isso se você tem um problema, Adriana”. e se eu tiver vários, muda alguma coisa?  trivialidades me deixam de …

pizza

ontem à noite comi pizza. nada pode ter de extraordinário na informação. principalmente se considerar o fato de que ela vem, de mesa em mesa, desde o Egito, daquela época em que seus habitantes eram chamados de egípcios, o que significa muito tempo de calendário. há também a versão de que os gregos, também de um tempo que acumula todas as antiguidades, foram os inaugurais do …

à beira do caminho

penso nessas casinhas de beira de estrada. pouca coisa me enternece desse jeito. seus cuspes de fumaça azul; os latidos daquele cachorro preto; o portãozinho entreaberto, madeira gasta de chuva e sol, ninguém passa por ali, mas ele existe como guarda e resistência.  numa dessas casinhas, eu sempre penso, alguém cuida das galinhas e alguém cuida das couves. e à noite, depois da canja, há …

noite

agarrar a porção da noite que está marcada como destino de cada um, que é cais, saída e chegada,  espalhar cada uma das estrelas nos cantos do espírito  nas encostas da alma nas esquinas dos pensamentos carregar as fatias das noites  mais escuras como se fossem brilhantes e pensar que brilhantes  também são pedras  que sempre estiveram crispando, cintilando, piscando, antes de se anunciarem.  saber …

boneca

quando eu era menina tinha uma bonecaela choravapara ela parar de chorareu fingia que cuidavaque amavaque agradava e ela fingia que parava.cresci achando que quando eu chorassee alguém fingisse amore me agradasse e simulasse cuidadoso certo era eu fingir que parava de chorarmesmo que por dentro todo o peito sem pilhas e sem cordasse contorcesse em dores e berros. quando eu era menina tinha uma bonecaela choravapara ela parar de chorareu brigavafalava uns …