não falo da fragilidade da flor: pétalas suaves tez macia cores de festa espetáculo de divisão não digo da delicadeza do poema: versos de amor voos de aves ritmo conforme o tema palavras em canção me refiro à vulnerabilidade da bomba, o fio errado, o passo em falso o toque na artilharia e a grande explosão.
tenho um traço de dislexia. ele aparece aqui e ali em textos pouco revisados e em leituras que arrastam parágrafos num vaivém demorado até retomar, ou achar, o fio da meada e seguir. não há muito que eu possa fazer em relação a isso. já tentei algumas providências que não alcançaram o sucesso esperado. medidas contrárias que reforçam o problema tenho aos montes.uma delas é um vício recente: …
um dia a porta fecha ninguém entra nada sai a tranca bate pesada sete mil chaves nenhuma brecha. um dia o trinco cai com força suspende o mundo cerra histórias chute na trave. um dia o cadeado bate eterno ergue muros estanca veias veda janelas no porão, as memórias. um dia a fechadura não gira nenhuma volta nada entra ninguém sai arrebentam-se correias a vida …
é óbvio, tenho mau humor. não preciso provar nada, mas escrevo nesse estado alterado só para dar mais credibilidade às palavras.bílis no comando. muitas coisas alteram meu humor. muitas. várias. a maioria. disfarço para poder viver em sociedade. fui educada para ser gentil e agradável “porque ninguém tem nada com isso se você tem um problema, Adriana”. e se eu tiver vários, muda alguma coisa? trivialidades me deixam de …
ontem à noite comi pizza. nada pode ter de extraordinário na informação. principalmente se considerar o fato de que ela vem, de mesa em mesa, desde o Egito, daquela época em que seus habitantes eram chamados de egípcios, o que significa muito tempo de calendário. há também a versão de que os gregos, também de um tempo que acumula todas as antiguidades, foram os inaugurais do …
penso nessas casinhas de beira de estrada. pouca coisa me enternece desse jeito. seus cuspes de fumaça azul; os latidos daquele cachorro preto; o portãozinho entreaberto, madeira gasta de chuva e sol, ninguém passa por ali, mas ele existe como guarda e resistência. numa dessas casinhas, eu sempre penso, alguém cuida das galinhas e alguém cuida das couves. e à noite, depois da canja, há …
agarrar a porção da noite que está marcada como destino de cada um, que é cais, saída e chegada, espalhar cada uma das estrelas nos cantos do espírito nas encostas da alma nas esquinas dos pensamentos carregar as fatias das noites mais escuras como se fossem brilhantes e pensar que brilhantes também são pedras que sempre estiveram crispando, cintilando, piscando, antes de se anunciarem. saber …
quando eu era menina tinha uma bonecaela choravapara ela parar de chorareu fingia que cuidavaque amavaque agradava e ela fingia que parava.cresci achando que quando eu chorassee alguém fingisse amore me agradasse e simulasse cuidadoso certo era eu fingir que parava de chorarmesmo que por dentro todo o peito sem pilhas e sem cordasse contorcesse em dores e berros. quando eu era menina tinha uma bonecaela choravapara ela parar de chorareu brigavafalava uns …
atravessei 2018 como quem passa por uma ponte muito longa sem perceber porque não olhou para a construção, mas ficou fixada no que corria por baixo ou no horizonte ou nos pássaros que voavam em volta. fiquei presa à paisagem. fato que não merece nenhum tipo de juízo. coisas grandiosas aconteceram comigo durante este ano. apesar de terem sido tão imponentes não quer dizer que …
prestar atenção nas perguntas e responder apenas o que querem saber transformar excessos em silêncios e encontrar maneira de viver muda. não contar lembranças nem histórias apenas uma e se for solicitada. não exagerar nos adjetivos não usar adjetivos pensar que uma pedra é uma pedra mesmo se azul ou cinza uma pedra azul ou cinza só terá algum sentido dentro da relevância da cor. …