eu lembrava de quando era criança. de um tempo para cá passei a inventar memórias. elas me chegam a partir de coisas que eu ouço. invejo a cabeça dos meus pais, embarco no que contam e finjo que sei do que estão falando. finjo com tanta força que passo a acreditar também. nessa madrugada, entre um soluço e outro, resolvi que tinha uma balança no …
tentar não pensar em palavras e entender a impossibilidade da meditação construir, sílaba por sílaba, imagens de campos floridos talvez só com girassóis e lembrar de Van Gogh pensar no tormento de Van Gogh sentir a angústia de Van Gogh retornar para imagem dos girassóis e lembrar que na primeira casa com o marido tinha um girassol alto em frente à janela que apontava a …
preciso fazer bazar virtual antes de passar para as vias de fato. o caso se dá porque há coisas aqui que são muito grandes, ocupam espaço e me impedem a organização para as outras. a pensar nisso e considerando minha experiência como bazarzeira, fotografarei móveis. cuidarei de seus ângulos, melhores closes, poses, curvas. mas sem disfarçar suas idades e sinais do tempo – oh céus!, …
para Francisco Mallmann não ficar à deriva mesmo quando não há direção, inventar que sabe para onde está indo e talvez até dizer para alguém ei, venha comigo. experimentar palavras diferentes para as normalidades dos dias e chamar de ventos, velas, naus o destino escolhido de cada um e talvez até ter coragem de pronunciar a palavra navegador ou timoneiro mais, ter coragem de falar …
há algumas coisas aqui em casa que merecem cruzar a porta e conhecer outros lugares para morar, outros corpos para vestir, outros temperos, outros pés, outros pescoços e assim por diante – considere todos os cômodos da casa. ao longo da vida vim acumulando uma série de trecos bacanas. tive a sorte de conhecer lugares interessantes e trazer um pouco de cada um para essa …
há passos que são delicados, flutuam entre as certezas entre os medos das certezas. nenhuma certeza existe e mesmo assim, todas elas andam naquele caminhar de trilhas de floresta que já não são mais e que continuam sendo como a luz que passa pela fresta entre o farol e a fortaleza só um quarto de lua se esconde, luz azul que parece sonho de outro …
minha incapacidade de desfile é testada diariamente. na quina da cama, na ponta do armário, no buraco da calçada, no vão do meio-fio. sou campeã em tombos, tropeços e esbarrões. talvez eu seja uma alma de 1,60cm presa num corpo de 1,80cm, não sei. pois bem, na noite de lançamento do meu livro, me arrumei toda bonitinha, saia e meia-calça, batom e rímel, cabelo e …
fui muito feliz nos outros lançamentos que fiz porque as pessoas generosas que tenho na vida não deixaram de me estender a mão. sacaram meu problema, minhas instabilidades, todos os meus dramas e trataram de me ajudar. precisei pedir ajuda de volta. as mesmas questões de sempre se somaram à irresponsabilidade de revelar em livro minha relação com os sete pecados capitais. com isso, juntei …
cada linha que escrevo é um solavanco na minha existência. haveria motivo para escrever se não fosse assim? não sei. só conheço isso. daqui a pouco, algumas viradas nos ponteiros, minha casa estará cheia de caixas. é o livro novo que se arrasta no asfalto para entrar aqui. e, como os outros que escrevi e provavelmente os que escreverei, caminhará em marcha lenta até conhecer …