Da janela do quartinho vejo a chuva que se aproxima. Chumbo no céu, muito verde balançando no vizinho e um cheiro de infância. Gosto quando as nuvens desabam. Não deve demorar muito para acontecer. Daqui, espio a natureza se transformando e imagino rios correndo furiosos, a serra do mar em rodopio, a areia da praia furada pelos pingos. Fujo desse planalto e fico em outro …
Em conversa afirmei que sou do time que acredita que todo mundo é bacana até que se prove o contrário. Acho isso, porque todo mundo é bacana e todo mundo é capaz de provar o contrário, eu, tu, ele. Vivo a apostar no melhor. Não tenho grandes problemas. Quando sou contrariada na filosofia, sacudo a poeira e dou a volta, quase sempre é possível compreender …
gosto dos prazeres da pele. maquino maneiras de perceber júbilo nas coisas mais simples: sapato confortável, textura de roupa, temperatura ambiente, móveis satisfatórios. é importante esse reconhecimento em tempo integral, ele me revela o agradável mesmo quando o resto não diz lá grande coisa. não sei se é por conta de tez tão sensível às mais discretas variações ou se seria igual, ainda que tivesse …
Sou rainha das listas. Faço lista pra tudo, dos afazeres cotidianos às roupas que irão na mala da próxima viagem. Me sinto segura assim; a memória aprendeu a funcionar nesse modo. A exceção mora justamente onde deveria ser regra: mercado. Não consigo me organizar; quando abro armários e geladeira para investigação dos ausentes, logo me distraio com o que há e vai tudo por água …
Depois de alguns meses a escrever no bloco de notas, volto às boas com o Word. Computador novo, quantia pouca para a Microsoft, um suquinho de maracujá durante a transferência e a licença é minha. Até as teclas parecem outras. A vida se refaz e tudo começa a voltar para seus devidos lugares. Mais concentração na leitura de textos, grande facilidade para marcar palavras, grifar …
a cidade de Salvador é, pra mim, um estado. de espírito. lugar que povoa minha imaginação de forma muito descolada da realidade de uma metrópole em que quase três milhões de pessoas vão e vêm. a Salvador de toda minha vida tem baianas do tempo do imperador; acordam em trajes brancos, rendados, rodados e adocicam tudo com aquele jeito manso de falar, um acarajé …
minhas malas estão prontas sei que não voltarei mais nunca mais. arrumei tudo, shampoo, escova e tamanco aquele vestido de borboletas e a bolsa azul. etiquetei a bagagem meu nome, meu sangue toda minha história e dois cadeados três cartas de lembrança e o velho anel. pesam muito minhas malas a vida inteira ali dentro mais a saia reta e o scarpin …
há muito que ouço por aí sobre como as pessoas são brutas, não se olham, não se ouvem, não se gostam, não se reconhecem. acho que são pequenos rios que vão em direção a um grande mar de confusão, lugar em que procuro nunca mergulhar. exemplo: tempos atrás estava com Lívia no mercado. no caixa, à nossa frente, uma moça com compras para uma …
do amor eterno só posso provar que meu amor é eterno depois do fim do fim de mim antes disso hei de amar-te todos os dias todas as horas num ciclo que se renova a cada minuto de sua dúvida e na prova de cada segundo de meu amor quando passo as mãos em teus cabelos quando te sorrio ao telefone quando te beijo …
Dizem por aí que a Língua Portuguesa tem 500 mil palavras, com variações para mais ou para menos, sem margem de segurança. Num piscar de olhos ou num dedinho de prosa novas surgem para nos dizerem alguma coisa que ainda não foi dita ou para novidades em nosso cotidiano e aos poucos, em gerúndio, vão engrossando o caldo do vocabulário. Também corre por aí a …