mergulho no mês de março. salto sem rede, mês de aniversário. nasci no último dia, o que, me faz, disseram, caminhar pelo inferno astral a partir de agora. eu nem sabia o que é inferno astral, mas parecia que seria caso de cuidado, atenção, zelo. a palavra inferno preocupa. tenho um mês inteirinho antes de dobrar nova esquina, de amarelar um pouco mais a identidade, de …
Renunciar ao amor parecia-me tão insensato como desinteressarmo-nos da saúde porque acreditamos na eternidade. – Simone de Beauvoir renunciar ao prazer é empresa das mais difíceis. largar a cama num escurinho com chuva, chegar ao final da feira, sair do mar quando o sol está bem forte, se desenrolar dos braços do amado, desligar o telefone no melhor da conversa… sou pessoa dada aos prazeres. …
acontece uma coisa quando a gente encontra. encontrar o sapato pra festa, o ingresso pro show, a carta amarelada, a fotografia antiga, o amigo de que se perdeu no tempo. encontrar os óculos, as chaves, o passaporte, o diploma da faculdade. encontrar dinheiro no bolso da calça, oferta do creme preferido, passagens baratas, o caminho de volta pra casa… encontrar dá contentamento. veja só, encontrar …
separação dói. sempre. dói quando planejamos, quando somos pegos de surpresa, quando queremos, quando não queremos. qualquer adeus é triste, até aquele que se anuncia lá longe, a dar pistas, a revelar sinais, formiguinha mesquinha que carrega mágoas de um lado para outro. o que está predestinado desde o primeiro dia. o que desaba em grande surpresa. acho que ninguém está pronto para a hora …
ensaio a troca do sofá, poltronas, baú e mesinha da sala. todo mundo está comigo há mais ou menos uns 20 anos me acompanhando pra cima e pra baixo em diversos espaços e composições. gosto dos móveis e de como se espalham por aqui, mas gosto mais ainda de tudo que me lembram. são testemunhas da minha história. criados-mudos de outros formatos que observaram tudo …
pela fresta aberta no quartinho, janelinha de um palmo de largura, vejo árvores, passarinhos, prédios, céu, telhados. recorte de cidade. vejo também, e com atenção especial, o meu edifício predileto do bairro. já falei dele por aqui. gosto de suas cenas e de como os vizinhos narram suas vidas na varanda. hoje, enquanto trabalhava e estiquei o rosto para sentir o ventinho da chuva, vi …
impressionada com as bundas na avenida… primeiro com o tanto de bunda bonita que saracoteia diante da escola, dos olhos, do mundo. bundas moldadas no sobe e desce de ladeiras. bundas esculpidas pelo gene africano. bundas que visitam academia e brigadeiro, musculação e preguiça, exercício e sorvete. bundas que conhecem o vaivém a caminho do mar e o balanço sensual de curvas femininas. bundas que …
o verão passa pela minha janela. me acena, me sufoca, chove e anoitece. dia após dia revela minhas impossibilidades, onde me asfixio e choro. parece que adoecer na época de praia, de liberdades, de sandálias e de vestidinhos floridos é mais angustiante e doloroso. a solidão das tardes quentes piora meu estado geral. e não importa muito o número de visitas que eu receba aqui, …
a terra girou um torno do sol quatro vezes desde que comecei o blog. enquanto o planeta voa pelo espaço numa velocidade de 108 mil quilômetros por hora, a revelar novas estações e sugerir nossas efemérides de ano novo, me seguro aqui no quartinho e navego junto. as vezes, quando estou a escrever, gosto de pensar no espaço sideral e na partícula mínima, insignificante, que …
quando eu era criança, uma mulher na casa dos trinta anos já estava passando do ponto. ponto de quê? sei lá, de namorar, de casar, de procriar, de qualquer coisa que era apenas permitida às mais jovens. em vez de estar “no ápice poético da vida”, como descreveu Balzac em “A mulher de trinta anos”, na minha infância uma balzaquiana estava condenada, como se isso …