cheia de alegria e outras coisas me entrego a tão prazeroso ritual: faço as malas. domingo, 13, sigo para Paris. o tempo é de trabalho. e isso significa que é também de muito contentamento. gosto do que faço e gosto mais quando é na Europa. novo projeto. não tenho muitos problemas com roupas. geralmente uso a que cai primeiro do armário quando abro a porta, …
quando o tempo é curto, a preguiça muita e a fome gritante, almoço num restaurantinho aqui na quadra de casa. é honesto, tem nome de ópera e serve à vizinhança. o pai do dono, um senhor muito simpático, está lá diariamente como um maître des cérémonies, que, sentado na sua mesa de todo dia, cumprimenta esfomeados com sorrisos e acenos. quando vou sozinha as vezes …
quantas mães podem sentir o mesmo que eu? muitas. há gente boa nesse mundo, a fazer coisas, a virar páginas, contribuir, melhorar nossa existência. as mães dessas pessoas devem se sentir como eu. mas tenho cá umas particularidades em minha condição materna. sou mãe do Dé e da Lívia. também da Jéssica. hoje falo dele. primeiro filho, vem acompanhando minha vida, meus tropeços, conquistas, subidas …
esperava encontrar um rosto mais sincero, mais simpático, com os olhos um pouco arqueados e algumas rugas de um sofrimento existencial. acho que esperava um pouco mais de espelho. me arrependi de ter procurado foto na internet. quase não tive jeito de continuar a ler, porque aqueles olhos de gato, tão longe dos afetos que eu encontrava em sua escrita mansa, me tiraram a sinceridade …
tenho uns problemas quando fico nervosa. ou fico muda, estática, com o olhar parado num eterno flerte com meu pé esquerdo ou falo sem parar, qualquer coisa, principalmente aquelas que não devo. por causa da minha irmã, fui convidada para bate-papo com o Jaime Lerner no sábado passado, 27. público, microfone, câmera, perguntas, tudo que me apavora. aceitei porque tenho cá minhas vontades de superação …
mergulho no mês de março. salto sem rede, mês de aniversário. nasci no último dia, o que, me faz, disseram, caminhar pelo inferno astral a partir de agora. eu nem sabia o que é inferno astral, mas parecia que seria caso de cuidado, atenção, zelo. a palavra inferno preocupa. tenho um mês inteirinho antes de dobrar nova esquina, de amarelar um pouco mais a identidade, de …
Renunciar ao amor parecia-me tão insensato como desinteressarmo-nos da saúde porque acreditamos na eternidade. – Simone de Beauvoir renunciar ao prazer é empresa das mais difíceis. largar a cama num escurinho com chuva, chegar ao final da feira, sair do mar quando o sol está bem forte, se desenrolar dos braços do amado, desligar o telefone no melhor da conversa… sou pessoa dada aos prazeres. …
acontece uma coisa quando a gente encontra. encontrar o sapato pra festa, o ingresso pro show, a carta amarelada, a fotografia antiga, o amigo de que se perdeu no tempo. encontrar os óculos, as chaves, o passaporte, o diploma da faculdade. encontrar dinheiro no bolso da calça, oferta do creme preferido, passagens baratas, o caminho de volta pra casa… encontrar dá contentamento. veja só, encontrar …
separação dói. sempre. dói quando planejamos, quando somos pegos de surpresa, quando queremos, quando não queremos. qualquer adeus é triste, até aquele que se anuncia lá longe, a dar pistas, a revelar sinais, formiguinha mesquinha que carrega mágoas de um lado para outro. o que está predestinado desde o primeiro dia. o que desaba em grande surpresa. acho que ninguém está pronto para a hora …
ensaio a troca do sofá, poltronas, baú e mesinha da sala. todo mundo está comigo há mais ou menos uns 20 anos me acompanhando pra cima e pra baixo em diversos espaços e composições. gosto dos móveis e de como se espalham por aqui, mas gosto mais ainda de tudo que me lembram. são testemunhas da minha história. criados-mudos de outros formatos que observaram tudo …