tenho muitas dificuldades em tomar decisões. há qualquer coisa em mim, que apelidei de insegurança, que me paralisa até quando sei o que devo fazer. saber o que devo fazer é coisa rara porque há qualquer coisa em mim, que apelidei de imaturidade, que me sufoca até quando tenho a certeza do que tenho que falar. saber o que tenho que falar é uma consciência …
despencou em mim um silêncio. denso, forte, profundo. é fácil senti-lo no tato. ele invade os poros, entra pelos olhos, aprisiona a voz, o olfato,esbofeteia os ouvidos.o silêncio embaraça os cabelos. os quilos das ausênciasos litros das despedidasas contagens de todos os números, das medidasmilímetro por milímetro entendo os quilômetrose penso nas próximas partidas.
estou entulhada de ausências. cada uma delas tem nome. algumas, sobrenome. o meu. outras quase têm o meu sobrenome. na raridade usei a palavra saudade no plural. sempre pensei que a saudade era uma e por mais que fosse grande, não era mais que uma. na minha cabeça, moldada pela tentativa de exatidão de um tipo de linguista, saudade não podia ser enumerada ou contada, …
tinha um marmeleiro no meu quintal. quando eu digo meu quintal, não significa absolutamente nada além de um espaço que emoldura a janela da cozinha da casa. a propriedade é do vizinho. além de ser do vizinho é grande e verde. além de ser do vizinho, grande e verde, é domesticamente selvagem. quando mudei para essa casa, havia galinhas. e um galo. foi por causa …
por motivos de copo na mão e muitas conversas e distrações não foi possível registrar os diversos momentos vividos em Paris na última semana. mas as lembranças de amizade, acolhimento e literatura estão em mim. como estão também as memórias da vizinhança, do cheiro da casa, da ruazinha. e, ainda, a confusão de idiomas, os policiais, as pontes e torres. e também o ar frio …
fiz uma limpa no guarda-roupa. vestidos, calças, camisetas, meias e calcinhas que não usava foram embora para nunca mais. abri as janelas do quarto e deixei o vento correr pelas paredes, pelo chão, pelo teto, atrás da porta. saiu a velha cômoda e todas as suas gavetas e puxadores e marchetarias e pés palitos. desmontei a cama e dispensei seus 429 parafusos, os cortes laqueados, …
enquanto enfrento jornadas cansativas de pensamentos, sinto meu coração acelerar. é um tipo de taquicardia que é também um sinal físico sobre o que a mente fabrica. nem sempre é fácil voltar à velocidade cruzeiro. um dia desses, dentro do banco, tive uma crise de ansiedade. todo o meu corpo tremeu e eu soube, imediatamente, que jamais respiraria na vida se continuasse ali. os dedos …
poderia ser uma boa metáfora para a vida monogâmica: após o acasalamento, os cupins perdem suas asas. asa de cupim é uma coisa muito fina, muito frágil, muito quase nada. quando eu era criança, lembro da chegada do calor, dos primeiros dias quentes e de fins de tarde sufocantes com asas de cupim perto da porta de entrada de casa. não sabia muito bem do …
estampei uma fotografia na sala da casa onde moro. garotos sorridentes, três, sentados sob a sombra de um arbusto no meio da Rua XV. eles estão atrás de uma mesa, como se fosse um guichê, duas cadeiras convidam os transeuntes a sentar e iniciar o atendimento. há uma faixa que explica o negócio: conversamos com qualquer um sobre qualquer coisa. vi um vídeo no Instagram. …
penso nos antigos relógios das torres das igrejas ou dos prédios públicos. também no apito da fábrica. e no trompete que anuncia a troca de turno dos bombeiros. e na campainha da escola. e nos sinos das catedrais. e no terceiro sinal antes do espetáculo. e na música do despertador. penso neste anúncio sonoro que proclama o controle do tempo. o controle do tempo. são …