solidão Arquivo

a morte

a morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza. o certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves. de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão …

os solitários

penso sobre solitários. não sobre a solidão, mas sobre aqueles que estão a tocar suas vidas a partir do íntimo deserto que todos vivem e poucos assumem. os clichês pintam uma série de quadros para falar dessas pessoas. solitários conversam com plantas. embalam suas samambaias com carinho e palavras. oferecem elogios, cantam músicas, dão de beber e adubam a companhia silenciosa, verde e condescendente. solitários …

pesadelos

tive uma noite de pesadelos, tremores, sobressaltos. imagens que se misturavam aos medos reais e iam me aterrorizando no sono ou a cada breve despertar. o estranho do ocorrido dessa noite difícil é que não conseguia ficar acordada por muito tempo. toda vez que recobrava a consciência, oscilava entre ficar desperta e sentir medo do que havia acabado de sonhar ou dormir de novo e …

aprender a morrer

estou a sonhar com os dias de Antonina. aqueles que passam calmos e duram muito, se alongam em minutos e giram preguiçosos no relógio. saudade do ar sufocante que de vez em quando é cortado por uma brisa leve que vem não sei de onde e some no sopapo do calorão que abafa, inibe, mata de tédio. tenho vontade de ficar naquela velha varanda a …

pedacinhos em riminhas pobres

na última porta do armário naquele lugar que não vejo não alcanço e não sei uma antiga lembrança. preciso das pontas dos pés dos braços estendidos do pescoço contorcido. preciso dos olhos atentos da alma lavada do olho comprido. revejo fitas, cartas, papeis descubro notas, correntes, anéis recupero fotografias, desenhos, pincéis. uma caixa cheia de vida entupida de pequenas mortes um baú de sonhos esquecidos …

terapia de supermercado

quando algum pensamento fica batucando na minha cabeça daquele jeito muito perturbador, que não dá folga e vai me engolindo, vou ao mercado. pego um carrinho e trato de pensar na elaboração de um prato – quanto mais ingredientes melhor. ando pelos corredores procurando o que preciso para a ficção da culinária. primeiro azeite, depois cebola, alho, sal, tomate. e faço o trajeto exatamente na …

escrever

escrevo. em algum momento achei que era essa a minha arma para mudar o mundo. ao perceber o tamanho da soberba e o nível de competência, desisti. continuei a escrever. pensei uma vez que era para explicar o mundo. mas compreendi que não tenho verdades absolutas nem conhecimentos suficientes que digam sobre a existência, recuei. ainda assim não parei. escrever me refresca a alma. é …

serenata

estou aqui, atormentada com duas frases que escrevi e desgraçadamente não se compõem com nada. olho para dentro e não há rastro em mim que possa servir-lhes de complemento. não avanço em texto menos ainda em ideia. não sei de onde vem esse deserto. nas minhas euforias de viajante conheci Pablo, Jorgito, Inés, Ramon, Anita, Almeida e não conheci ninguém. falei aqui e ali, ouvi …

Alfonsina e yo

os olhos parados de Alfonsina me incomodaram. para sempre ali, grudados no nada, com uma sede de conversa, a carência dos anos, vontade de juventude. de tudo que vi são seus olhos que não esquecerei jamais e aquela coisa que eles gritavam que era meio parecida com a minha voz quando estou muito triste e um pouco morta. tenho medo de ficar como ela. pior, …

vontade de verão

o verão passa pela minha janela. me acena, me sufoca, chove e anoitece. dia após dia revela minhas impossibilidades, onde me asfixio e choro. parece que adoecer na época de praia, de liberdades, de sandálias e de vestidinhos floridos é mais angustiante e doloroso. a solidão das tardes quentes piora meu estado geral. e não importa muito o número de visitas que eu receba aqui, …

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