solidão Arquivo

rotação

estou aqui, numa insônia sem fim, a pensar na vida e em meus caminhos movediços, sem saber se volto para sala e tomo mais uma taça ou se continuo na escuridão do quarto cortada por lua que já não é mais tão cheia. neste mundo de travesseiros e cobertas, suplico por um sono que não chega. dormir é melhor do que pensar. a noite que …

eu, antiquária

uma vontade recente me belisca. parece que nova quimera começa a brotar neste cabeção tão afastado das realidades: a caminhar aqui e ali a ideia de ter um antiquário. obviamente mais uma coisa a se juntar à minha vocação de pouca renda e sonhos múltiplos. comecei a procurar curso. não sei exatamente o que é necessário para tratar do assunto com competência, mas passei a …

o monstro que mora em mim

não me movimento mais durante discussões. não porque me falte argumentos ou por preguiça de conta-los. acontece uma coisa comigo durante debates que procuro evitar. um monstro feio, louco de pedra, mora em mim. eu o nino com algumas delicadezas, ele adormece e fica lá, quietinho, quase morto, como se não existisse. mas quando provocado, quando tirado de suas profundezas, ele explode indomável, furioso, inconformado. …

a morte

a morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza. o certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves. de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão …

os solitários

penso sobre solitários. não sobre a solidão, mas sobre aqueles que estão a tocar suas vidas a partir do íntimo deserto que todos vivem e poucos assumem. os clichês pintam uma série de quadros para falar dessas pessoas. solitários conversam com plantas. embalam suas samambaias com carinho e palavras. oferecem elogios, cantam músicas, dão de beber e adubam a companhia silenciosa, verde e condescendente. solitários …

pesadelos

tive uma noite de pesadelos, tremores, sobressaltos. imagens que se misturavam aos medos reais e iam me aterrorizando no sono ou a cada breve despertar. o estranho do ocorrido dessa noite difícil é que não conseguia ficar acordada por muito tempo. toda vez que recobrava a consciência, oscilava entre ficar desperta e sentir medo do que havia acabado de sonhar ou dormir de novo e …

aprender a morrer

estou a sonhar com os dias de Antonina. aqueles que passam calmos e duram muito, se alongam em minutos e giram preguiçosos no relógio. saudade do ar sufocante que de vez em quando é cortado por uma brisa leve que vem não sei de onde e some no sopapo do calorão que abafa, inibe, mata de tédio. tenho vontade de ficar naquela velha varanda a …

pedacinhos em riminhas pobres

na última porta do armário naquele lugar que não vejo não alcanço e não sei uma antiga lembrança. preciso das pontas dos pés dos braços estendidos do pescoço contorcido. preciso dos olhos atentos da alma lavada do olho comprido. revejo fitas, cartas, papeis descubro notas, correntes, anéis recupero fotografias, desenhos, pincéis. uma caixa cheia de vida entupida de pequenas mortes um baú de sonhos esquecidos …

terapia de supermercado

quando algum pensamento fica batucando na minha cabeça daquele jeito muito perturbador, que não dá folga e vai me engolindo, vou ao mercado. pego um carrinho e trato de pensar na elaboração de um prato – quanto mais ingredientes melhor. ando pelos corredores procurando o que preciso para a ficção da culinária. primeiro azeite, depois cebola, alho, sal, tomate. e faço o trajeto exatamente na …

escrever

escrevo. em algum momento achei que era essa a minha arma para mudar o mundo. ao perceber o tamanho da soberba e o nível de competência, desisti. continuei a escrever. pensei uma vez que era para explicar o mundo. mas compreendi que não tenho verdades absolutas nem conhecimentos suficientes que digam sobre a existência, recuei. ainda assim não parei. escrever me refresca a alma. é …

Pin It on Pinterest