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a morte

a morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza. o certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves. de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão …

a queda

sou estabanada. desde sempre. tropeço, esbarro, derrubo. até hoje não consegui identificar se é um problema de noção corporal ou uma coisa que vive desligada porque me distraio olhando o mundo e esqueço de prestar atenção nos detalhes ordinários. aos 15 anos, quebrei meu tornozelo. não foi culpa minha. saltei de paraquedas e tudo tinha dado certo, mas quando estava chegando no chão, o vento …

pesadelos

tive uma noite de pesadelos, tremores, sobressaltos. imagens que se misturavam aos medos reais e iam me aterrorizando no sono ou a cada breve despertar. o estranho do ocorrido dessa noite difícil é que não conseguia ficar acordada por muito tempo. toda vez que recobrava a consciência, oscilava entre ficar desperta e sentir medo do que havia acabado de sonhar ou dormir de novo e …

o primeiro antidepressivo a gente nunca esquece

é assim, de repente, numa quarta-feira qualquer, numa que não é de ramos, que não é de cinzas, que não é de nada, vem um diagnóstico que parece comum. comum aos outros, nunca a nós mesmos: preciso de remédio para me ajudar na jornada. antidepressivo. relutei até chegar nesse momento porque minhas explicações para negativa de tratamento iam de um lado para o outro, se …

caminhada no parque

tenho ido caminhar no parque. de manhã. bem cedo. gosto bastante, me sinto saudável e atleta. enfio os fones de ouvido, encho os pulmões de ar e me jogo na pista, passadas largas, ligeiras e ritmo constante. fico orgulhosa da desportista que mora em mim e, finalmente, resolveu se apresentar para o combate. em alguns dias consegui observar uma certa hierarquia nos espaços. por partes. …

presa no elevador

não vi a vida passar na minha cabeça como num filme. não consegui pensar nos filhos. não lamentei a esperança do porvir. fiquei num vazio sem passado e sem futuro. presa num presente, num tempo indefinível em que me olhava descabelada no espelho a achar que ia morrer. depois de uma dezena de solavancos, o elevador parou. pernas bambas, fui inundada por uma onda de …

finanças, striptease e terapia

fui criada numa família em que ninguém falava muito de dinheiro. exceção para dar uma reclamada básica do preço das coisas ou uma sugestão de economia em alguns itens. acho verdadeiro afirmar que meus pais não tinham problemas de grana. a vida era diferente do que é hoje. os presentes tinham data determinada para acontecer. ida aos restaurantes também. refrigerante só em dia de festa. …

turismo de compras

a considerar meu pacato modo de vida e minhas opções, não dá para me qualificar como um tipo consumista. mas tenho umas coisas que às vezes fogem do controle. acompanhe. fui passar uns poucos dias de repouso em praia longe de tudo que não conhece a palavra shopping. o comércio local fecha na hora do almoço, mesmo no auge da temporada. as lojinhas de ocasião …

colecionadora de vexames

não me lembro quando fui apresentada ao Google. sei bem como me espantei. qualquer coisa?, qualquer coisa mesmo?. naquela época, eu não sabia direito do que se tratava; os conceitos de sites e de buscador eram um pouco confusos pra mim. passei a trata-lo como um enorme índice que me conduzia a páginas confiáveis, testadas e aprovadas. minha primeira reação ao seu canto de sereia foi …

dias inúteis

gosto do que faço. até quando não gosto, gosto. sentar na solidão do quartinho e batucar texto é uma tarefa cheia de pequenos prazeres. ainda que o assunto não seja lá dos melhores, há um certo contentamento em organizar as palavras, buscar combinações, cavar referências, tentar dar suavidade a alguma paúra de mercado, política ou social e mesmo assim mandar o recado. mas eu gosto …

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