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ressonância magnética

fui fazer ressonância magnética. nem sei direito o que é uma ressonância magnética, mas o doutor achou que era recomendável e eu, como de costume, obedeci. estou numa escalada progressiva de exames. comecei com um raio-x, evoluí para ecografia, passei à tomografia e agora cheguei à ressonância magnética. nome bonito este. coisa sonora. e, ainda por cima, com contraste. tudo parece tão harmonioso que tivesse …

o porvir

sempre tive problemas com o futuro. acho que tem relação com o número de compromissos que tenho, que sempre tive, no presente. comprometer o porvir é uma espécie de tortura para minha frágil existência. até coisas banais me deixam nervosa: agendar o cinema de sábado, o almoço na semana que vem, a festa de aniversário. na empolgação do momento, combino tudo e três minutos depois …

bem cedinho

teve um tempo na vida que eu tinha muita disposição pela manhã. era meu melhor horário. tudo funcionava rapidinho. mesmo que as horas de sono tivessem sido magras ou que os sonhos acontecessem inoportunos, nenhum minuto a mais me era necessário. primeira providência sempre foi bater a mão sonâmbula no rádio. abria os olhos e a vida estava valendo. achava que tinha relação com meu …

os óculos e eu

um pouco de idade e um pouco de composição genética me fizeram recorrer a óculos. fui ao doutor. ‘assim é melhor?’ ‘ou assim?’ ‘e agora, melhorou?’ ‘se eu mudar, melhora ou piora?’ ‘consegue ler a última linha?’ ‘e assim, consegue?’ depois da primeira troca de lentes, me perco totalmente. tudo fica pior e tudo fica melhor. minha resposta só depende mesmo do tom da voz …

o monstro que mora em mim

não me movimento mais durante discussões. não porque me falte argumentos ou por preguiça de conta-los. acontece uma coisa comigo durante debates que procuro evitar. um monstro feio, louco de pedra, mora em mim. eu o nino com algumas delicadezas, ele adormece e fica lá, quietinho, quase morto, como se não existisse. mas quando provocado, quando tirado de suas profundezas, ele explode indomável, furioso, inconformado. …

entre enxaqueca e outras coisas

tinha planos para o feriado. uma dorzinha de cabeça começou me beliscar devagarinho. inoportuna, inconveniente, chata. não dei atenção. segui a vida a tratar de compromissos e recreios para ver se a vencia pelo cansaço. nada. a danada ganhou forças. tratou de crescer como se fosse bicho. virou enxaqueca e desmontou meus planos. de uns tempos pra cá, a enxaqueca me persegue. não gosta da …

em Piên

uma vez, mais de 20 anos, fui a Piên. não conheci a cidade porque saí da minha casa e desembarquei direto numa madeireira, um lance que tinha relação com eucaliptos. daquele episódio lembro pouca coisa: vento absurdo que curvava árvores, chacoalhava janelas, e assobiava pequenos redemoinhos no chão; meu interlocutor era um homem com personalidade diferente, jogava a cadeira de diretor para trás em movimentos …

a nadar em rio cristalino

peguei o ônibus Curitiba-Lages, desci em Mafra e segui para Rio Negro, que, pelo que fiquei sabendo não tem mais rodoviária, mas deveria. o passeio pela cidade me fez ter vontade de pular do carro e seguir a pé, a subir e descer morros, atravessar as ruas largas, olhar de perto as flores e bater palmas em frente a uma casa qualquer para pedir um …

na rodoviária

sentada na rodoviária. uma moça, mais ou menos 40 anos (sim, isso pra mim é moça): você vai ficar sentada aqui muito tempo? não entendi a pergunta, mas respondi que sim. quando não entendo as coisas direito sempre respondo que sim. e ela: você pode cuidar das minhas coisas para eu ir ao banheiro? com minha afirmação, porque não sabia o que responder, largou uma …

a morte

a morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza. o certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves. de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão …

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