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a morte

a morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza. o certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves. de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão …

Terremoto de Lisboa

dia desses o Dé me contou sobre como os historiadores se refugiam num fato para colocar ponto final em algumas buscas. em mil setecentos e muito, um super, hiper, ultra terremoto destruiu Lisboa. de tsunami a incêndios, de desmoronamento a mortes, a cidade ficou no chão. o Palácio Real está entre os muitos prédios que tombaram, era dentro dele que funcionava importante biblioteca. mais de …

os solitários

penso sobre solitários. não sobre a solidão, mas sobre aqueles que estão a tocar suas vidas a partir do íntimo deserto que todos vivem e poucos assumem. os clichês pintam uma série de quadros para falar dessas pessoas. solitários conversam com plantas. embalam suas samambaias com carinho e palavras. oferecem elogios, cantam músicas, dão de beber e adubam a companhia silenciosa, verde e condescendente. solitários …

pesadelos

tive uma noite de pesadelos, tremores, sobressaltos. imagens que se misturavam aos medos reais e iam me aterrorizando no sono ou a cada breve despertar. o estranho do ocorrido dessa noite difícil é que não conseguia ficar acordada por muito tempo. toda vez que recobrava a consciência, oscilava entre ficar desperta e sentir medo do que havia acabado de sonhar ou dormir de novo e …

o primeiro antidepressivo a gente nunca esquece

é assim, de repente, numa quarta-feira qualquer, numa que não é de ramos, que não é de cinzas, que não é de nada, vem um diagnóstico que parece comum. comum aos outros, nunca a nós mesmos: preciso de remédio para me ajudar na jornada. antidepressivo. relutei até chegar nesse momento porque minhas explicações para negativa de tratamento iam de um lado para o outro, se …

turismo de compras

a considerar meu pacato modo de vida e minhas opções, não dá para me qualificar como um tipo consumista. mas tenho umas coisas que às vezes fogem do controle. acompanhe. fui passar uns poucos dias de repouso em praia longe de tudo que não conhece a palavra shopping. o comércio local fecha na hora do almoço, mesmo no auge da temporada. as lojinhas de ocasião …

aprender a morrer

estou a sonhar com os dias de Antonina. aqueles que passam calmos e duram muito, se alongam em minutos e giram preguiçosos no relógio. saudade do ar sufocante que de vez em quando é cortado por uma brisa leve que vem não sei de onde e some no sopapo do calorão que abafa, inibe, mata de tédio. tenho vontade de ficar naquela velha varanda a …

colecionadora de vexames

não me lembro quando fui apresentada ao Google. sei bem como me espantei. qualquer coisa?, qualquer coisa mesmo?. naquela época, eu não sabia direito do que se tratava; os conceitos de sites e de buscador eram um pouco confusos pra mim. passei a trata-lo como um enorme índice que me conduzia a páginas confiáveis, testadas e aprovadas. minha primeira reação ao seu canto de sereia foi …

dias inúteis

gosto do que faço. até quando não gosto, gosto. sentar na solidão do quartinho e batucar texto é uma tarefa cheia de pequenos prazeres. ainda que o assunto não seja lá dos melhores, há um certo contentamento em organizar as palavras, buscar combinações, cavar referências, tentar dar suavidade a alguma paúra de mercado, política ou social e mesmo assim mandar o recado. mas eu gosto …

2016

eu aprendi algumas coisas. me despedi de uns sonhos. renovei esperanças em novos pensamentos. fiquei incrivelmente grisalha. vivi Antonina, Buenos Aires, Florianópolis, Londres, Paranaguá, Zurique, São Paulo, Paris e, principalmente, os caminhos que me levaram a esses lugares. parei de tomar remédios. tive o carro roubado. colecionei novas marcas no rosto. aprendi a lidar com algumas contradições. cortei definitivamente umas pessoas da minha vida. publiquei …

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