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o primeiro antidepressivo a gente nunca esquece

é assim, de repente, numa quarta-feira qualquer, numa que não é de ramos, que não é de cinzas, que não é de nada, vem um diagnóstico que parece comum. comum aos outros, nunca a nós mesmos: preciso de remédio para me ajudar na jornada. antidepressivo. relutei até chegar nesse momento porque minhas explicações para negativa de tratamento iam de um lado para o outro, se …

exercício de escrita no hospital

é madrugada e estou na emergência de um hospital. longos corredores, faixa pintada no chão e silêncio de uma ala inabitada me fazem pensar em coisas. às vezes penso em algumas cores também. mas o que me ocupa mesmo são as coisas. embora sejam concretas, chegam de uma forma muito divagante se penso numa cadeira, por exemplo, ela flutua, abstrata e um pouco azulada no …

vontade de verão

o verão passa pela minha janela. me acena, me sufoca, chove e anoitece. dia após dia revela minhas impossibilidades, onde me asfixio e choro. parece que adoecer na época de praia, de liberdades, de sandálias e de vestidinhos floridos é mais angustiante e doloroso. a solidão das tardes quentes piora meu estado geral. e não importa muito o número de visitas que eu receba aqui, …

triste. muito triste

os preparativos para o 1º de maio no meio do caminho. a festa do trabalhador, que reúne música ruim, sindicalista em protesto e sorteio de brindes que disfarçam a ruína diária ou acariciam a luta individual. tudo lá, meio espalhado e meio a se fazer de irônico cenário para cenas difíceis de encarar. há coisas muitas nessa história toda e elas não se resumem nos …

entre a salvação e a perdição

Sim, eu sei, tenho tendências ao drama. Desde sempre. É um drama autêntico, sincero, uma coisa que me pega no contrapé e quando vejo já estou estirada no sofá, mão direita tampando os olhos, lágrimas escorrendo e soluços desenfreados por ter lido uma desgraça no jornal ou por não ter recebido telefonema esperado ou por pensar nas pessoas que estão internadas no hospital aqui da …

os alquimistas estão chegando

ilhada em casa, onde o mundo me chega nos mais variados formatos, recebo dois vidrinhos. iguaizinhos, gêmeos. o rótulo me é de impossível compreensão. procuro os óculos, a lupa e continuo lerdaça com o nome: Óleo de Sucupira. desconhecimento. achei que não podia ser coisa de comer, porque geralmente as coisas de comer, ou de colocar na comida, têm embalagens maiores, melhores, cheias de pensamentos …

pedras do caminho

veja como são as coisas. na verdade, tenho certeza que você já sabe como elas são, mesmo assim quero contar. preciso fazer biópsia. muito bem. depois de papo de hora e meia com o cirurgião, saí do consultório com as obrigações dividias. as dele: reunir equipe, reservar data no hospital e me avisar. as minhas: conseguir uns carimbos do plano de saúde, uma pequena quantia …

espinhos

tenho marcas. marcas no corpo. não só as dos anos, das emoções, das intensidades. tenho marcas por conta de patologias. várias, variadas patologias. uma vez, um médico me disse que eu era um modelo para estudo de caso interessante. tese. inscrições em congressos. artigos científicos. acumulo reações alérgicas. tantas, que as vezes acho que todas são uma só e que ela reage ao ar que …

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