poesia Arquivo

figueira

se árvore, nasceria figueira. linda, falante, verdinha. endereço definitivo, pés bem fincados raízes coladas na margem de um rio. e enquanto a correnteza levasse peixes e provocasse patos, varresse pedras e recebesse chuva, eu me ergueria soberba e delicada, lúcida e honrada, em andares, andaimes, alturas, detalhes. deixaria que bromélias e cipós, passarinhos e orquídeas, me descobrissem e me habitassem. e quando estivesse perto céu …

pedacinhos em riminhas pobres

na última porta do armário naquele lugar que não vejo não alcanço e não sei uma antiga lembrança. preciso das pontas dos pés dos braços estendidos do pescoço contorcido. preciso dos olhos atentos da alma lavada do olho comprido. revejo fitas, cartas, papeis descubro notas, correntes, anéis recupero fotografias, desenhos, pincéis. uma caixa cheia de vida entupida de pequenas mortes um baú de sonhos esquecidos …

serenata

estou aqui, atormentada com duas frases que escrevi e desgraçadamente não se compõem com nada. olho para dentro e não há rastro em mim que possa servir-lhes de complemento. não avanço em texto menos ainda em ideia. não sei de onde vem esse deserto. nas minhas euforias de viajante conheci Pablo, Jorgito, Inés, Ramon, Anita, Almeida e não conheci ninguém. falei aqui e ali, ouvi …

viagem de trem

uma missa em latim o reflexo do rosto no trem o som do baixo, o jazz bombas em Bruxelas vento varre capim. menos uma hora em Paris ando descalça em Londres ouço a velha música o livro está sobre a mesa e a tragédia no jornal falso espanto da realeza. no relógio, o mesmo horário campos de trigo, de nada um avião, árvores secas, paisagem …

não se apresse na volta

não se volta ao amor assim, machucada não se visita o amor com mágoas novo amor velho amor, amor não merece liquidação dos dramas transbordar de dores memória corroída chansons que derramam pesares e esperanças amordaçadas há de se respeitar o amor e não obrigá-lo a mesquinharias dos outros tempos de todos os tempos para o amor, foro limpo bons tratos. pousá-lo no colo e …

música

a brisa que sopra em meu rosto as pérolas do colar um pavio no último suspiro aqueles dias de agosto… sinto o embalo de sua mão a janela aberta entra melodia, a travessia eu sinto o embalo da sua mão e um adeus que precipita as palavras que quero te cantar em poesia ou em canção tecendo em cada sorriso em toda a lágrima sua …

tradutor

eu tenho uma vida inteira desperdiçada em lágrimas toda mi vida a llorar, caer en lluva de sal escorreu em meu rosto, traços fundos, todo tipo de lástima sufrí pelos hombres que no lo saben gritei as verdades num coro total naufragué en los córregos menos profundos e por fim larguei as esperanças no canto dos boicotes poco a la izquierda para otros tiempos mesmo …

sou prosa

a poesia está em mim como a música. sou uma amante submissa, que admira, se encanta, entende, alcança. e só. e já é muito. vez ou outra cometo a saliência vulgar de tentar o que não sou. a poesia é generosa e me deixa passear inocente entre seus versos, abre sua casa e me chama para que eu entre, para que eu visite, para que …

protagonista

pode ser que essa vontade de comer pastel na feira passe, como talvez passe também o desejo de caminhar na praia, de entrar no mar, de contar estrelas e de aprender a costurar. vai que eu mude de ideia e não precise mais pisar na Estação de Sirkeci ou não queira as alvoradas dos canarinhos muito amarelos da minha varanda. quem sabe, eu desista assim, …

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