Arquivo Mensal: Fevereiro 2016

horóscopo

mergulho no mês de março. salto sem rede, mês de aniversário. nasci no último dia, o que, me faz, disseram, caminhar pelo inferno astral a partir de agora. eu nem sabia o que é inferno astral, mas parecia que seria caso de cuidado, atenção, zelo. a palavra inferno preocupa. tenho um mês inteirinho antes de dobrar nova esquina, de amarelar um pouco mais a identidade, de …

a renúnica do prazer

Renunciar ao amor parecia-me tão insensato como desinteressarmo-nos da saúde porque acreditamos na eternidade. – Simone de Beauvoir renunciar ao prazer é empresa das mais difíceis. largar a cama num escurinho com chuva, chegar ao final da feira, sair do mar quando o sol está bem forte, se desenrolar dos braços do amado, desligar o telefone no melhor da conversa… sou pessoa dada aos prazeres. …

a arte do encontro

acontece uma coisa quando a gente encontra. encontrar o sapato pra festa, o ingresso pro show, a carta amarelada, a fotografia antiga, o amigo de que se perdeu no tempo. encontrar os óculos, as chaves, o passaporte, o diploma da faculdade. encontrar dinheiro no bolso da calça, oferta do creme preferido, passagens baratas, o caminho de volta pra casa… encontrar dá contentamento. veja só, encontrar …

separação

separação dói. sempre. dói quando planejamos, quando somos pegos de surpresa, quando queremos, quando não queremos. qualquer adeus é triste, até aquele que se anuncia lá longe, a dar pistas, a revelar sinais, formiguinha mesquinha que carrega mágoas de um lado para outro. o que está predestinado desde o primeiro dia. o que desaba em grande surpresa. acho que ninguém está pronto para a hora …

meus móveis, minha vida

ensaio a troca do sofá, poltronas, baú e mesinha da sala. todo mundo está comigo há mais ou menos uns 20 anos me acompanhando pra cima e pra baixo em diversos espaços e composições. gosto dos móveis e de como se espalham por aqui, mas gosto mais ainda de tudo que me lembram. são testemunhas da minha história. criados-mudos de outros formatos que observaram tudo …

antes da chuva chegar

pela fresta aberta no quartinho, janelinha de um palmo de largura, vejo árvores, passarinhos, prédios, céu, telhados. recorte de cidade. vejo também, e com atenção especial, o meu edifício predileto do bairro. já falei dele por aqui. gosto de suas cenas e de como os vizinhos narram suas vidas na varanda. hoje, enquanto trabalhava e estiquei o rosto para sentir o ventinho da chuva, vi …

derrière

impressionada com as bundas na avenida… primeiro com o tanto de bunda bonita que saracoteia diante da escola, dos olhos, do mundo. bundas moldadas no sobe e desce de ladeiras. bundas esculpidas pelo gene africano. bundas que visitam academia e brigadeiro, musculação e preguiça, exercício e sorvete. bundas que conhecem o vaivém a caminho do mar e o balanço sensual de curvas femininas. bundas que …

vontade de verão

o verão passa pela minha janela. me acena, me sufoca, chove e anoitece. dia após dia revela minhas impossibilidades, onde me asfixio e choro. parece que adoecer na época de praia, de liberdades, de sandálias e de vestidinhos floridos é mais angustiante e doloroso. a solidão das tardes quentes piora meu estado geral. e não importa muito o número de visitas que eu receba aqui, …

translação

a terra girou um torno do sol quatro vezes desde que comecei o blog. enquanto o planeta voa pelo espaço numa velocidade de 108 mil quilômetros por hora, a revelar novas estações e sugerir nossas efemérides de ano novo, me seguro aqui no quartinho e navego junto. as vezes, quando estou a escrever, gosto de pensar no espaço sideral e na partícula mínima, insignificante, que …

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