alvorada

Parei o que estava fazendo quando me dei conta do tempo, quatro e meia da manhã. Calculo que entre retoque da maquiagem, troca de roupa e afofar de travesseiros, tenha ido dormir perto das cinco.

Acho que foi por isso que me pareceu tão irreal quando a Lívia entrou no meu quarto e anunciou: mãe, são dez pra sete, vamos?

Fugi da cama. Não me despedi, não contei com o corpo ainda bambo o quanto ela é quentinha e fofa e agradável. Não revelei nadinha nem à cama nem ao quarto escurinho. Só pulei e saí, feito criatura ingrata que nem olha pra trás.

Cumpri com silêncio, esforço e competência minha primeira função do dia. Lívia e amiga entregues.

Antes de voltar pra casa, pensei em comprar pão. Tão bom manteiguinha a derreter na massa fresquinha… Na padaria, achei que era melhor transferir a mesa do café: melhor que pão quentinho com manteiga, é ter isso acompanhado de café e suco e frutas e queijo e bolo e, mais importante, sem precisar recorrer a outro esforço físico…

Sentei-me e como não gosto de ir ao buffet, prefiro sempre que ele venha a mim, fiz pedido. Tratei do desjejum em silêncio de passamento, cabeça fechada para qualquer ideia. Sono. Na intenção de adiantar expediente, mandei mensagem que era pra Lívia no celular do Dé, o bilhete do Dé foi pra minha irmã e meu pai recebeu confirmação sobre assunto que ele desconhece – sardinha ao cachorro, banana pro gato…

Na fila do caixa percebi alguns olhares estranhos pra cima de mim e o sorrisinho meio debochado da menina das cobranças.
Paguei e tomei meu rumo.

Quase em casa, entrei no elevador com aquela tão curitibana preguiça de conversa. Meu vizinho, por sorte, estava como eu, só se limitou a falar qualquer coisa do tempo e do horário, riu-se meio zombeteiro e pronto.

Só quando entrei no meu quarto é que entendi os olhares, o sono, as convenções: eu saí de pijama, super pijama, roupão por cima, cabelo em coque, pantufa nos pés. Saí como se tivesse ficado. Saí sem contar nada para o corpo. Saí com esperança de voltar. Saí, ainda não voltei.

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