Beto Batata

“voa, menina, voa”, me disse isso, olhos nos meus, abriu minha mão e me presenteou com uma revoada de passarinhos de origami. tesouro.


sei, pela análise do passado, que não é exatamente reflexo da verdade, já havia alcançado certo respeito profissional quando Beto me soltou esses passarinhos. mas foi em seu olhar que eu senti pela primeira vez que alguém verdadeiramente confiava em meu trabalho.
era qualquer coisa em seu jeito, em seu olhar, nas suas mãos. era uma forma de me emancipar de mim mesma, de destruir os meus medos. 

toda vez que o vejo, tenho esse momento de volta. me renovo em seu sorriso, me percebo linda no espelho dos seus olhos. 
o Beto sabe mostrar o melhor de cada um. é a marca da generosidade: deixar que a gente acredite em virtudes próprias. 

muitas vezes recebi bilhetinhos carinhosos que me fizeram renovar esse sentimento. faz tempo que ele não me manda um recado sobre mim mesma. reclamo. reclamo porque tenho aqui a minha cota de egoísmo que me faz querê-lo disponível, mesmo quando está concentrado em suas pendengas. 

quantos assim no mundo? poucos, raros. 

há uns meses, quando recebi o anúncio do fechamento do restaurante, lamentei. tristeza, porque passei grandes momentos da vida lá, vi artistas incríveis tocarem a um palmo de distância, conheci sabores inesquecíveis, brindei saúde a muitos amigos. tristeza também pela cidade, que cada dia fica mais pobre, mais seca, mais vazia. 
mas há uma onda maior.
o Beto é o Beto, e não é a Aldeia que o faz, foi ele quem a fez. o Beto é maior que o restaurante. a sua figura, sua cabeça, sua cadeia de pensamentos e ações serão sempre possíveis. 
na memória, os momentos vividos num lugar espetacular. 
na vida real, esperar por seu novo endereço e recomeçar a construção de um novo tempo, que será tão belo quanto o passado, porque ele estará lá. 

ele se sente um milionário? nada! riqueza tenho eu, por saber de sua existência…
 




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