Chiquita Bacana

um dia desses me deu vontade de saber ioruba. não o idioma completo. não fluência perfeita. não diálogos íntegros. só algumas coisas para dar charme em conversas ou poder espalhar em letras ou ouvir música com mais propriedade. coisa simples.

pois bem, fui atrás de um dicionário.

como imaginei não é tarefa difícil encontrar um companheirinho português-ioruba. as opções são variadas, atendem às minhas ignorâncias com tranquilidade e nesse meu carnaval raso de informações é o que preciso.

mas por aqui quase nada é simples. nenhum caminho leva ao objetivo sem paradas improvisadas.

a olhar os povos que falam a língua, cheguei a essa frase: “Os yorubás creem que os antepassados interferem diariamente nos eventos da terra”. pronto. deu-se a largada para os meus devaneios.

penso aqui com meus zíperes o quanto dos meus está em mim. acho que na espiral do DNA é relativamente visível saber. esse lance deve mapear várias gerações e mostrar uma conta daquelas que me coloca como descendente de Adão e Eva e toda a carga de genoma que vem se arrastando até chegar a mim, com esses olhos e esse cabelo; com essa altura e essa voz; com essa doença e esse nariz. tudo bem, carrego muitos antepassados no meu cotidiano. do chimpanzé até hoje, está tudo aqui, modificado e modificando.

mas e no sentido dos iorubas? a crença deles não é a minha. tenho veias existencialistas, não consigo pensar de forma que me coloque numa outra posição que não seja a de agente de meu destino, das minhas escolhas e consequências. não me sinto escrava nem vítima de nada que não seja eu mesma. e também não me vejo responsável por dramas alheios. sou feito a Chiquita Bacana.

e se eu fosse ioruba, no sangue e na cultura; no pensamento e na ação? talvez uma existência mais feliz e interessante. e inteligente. essa lógica que mostra a importância dos antepassados também traz em suas entrelinhas a importância do presente, do hoje, do agora. não só pelo temor das penas que descerão nos ombros dos mal comportados, mas pelo sentido de permanência. os iorubas e outros povos que têm verdades parecidas, devem se desviar menos do que é taxado como certo. há um nome a preservar, um perfil para cuidar, uma árvore inteira para que continue sendo regada, é chato ser o fruto podre de um grande aparato que começou lá no início da humanidade.

e a pular de galho em galho nesse mundo maluco da internet, acho que descobri a fonte do meu interesse na BBC:
“Um estudo divulgado nesta terça-feira revela a forte presença de genes de alguns povos africanos e europeus, como os iorubás da Nigéria e os bascos, no genoma da população atual da América do Sul. […] O estudo também mostra que os iorubás da África Ocidental são os ‘maiores contribuintes’ genéticos africanos para toda a população das Américas, já que esta região foi a mais afetada pelo comércio de escravos.”

aqui estou, ioruba por natureza, existencialista por opção.

emi si fẹ alaye yi!

simone

Simone de Beauvoir, por Art Shay. Chicago,1952. e lá em cima uma arte ioruba, da Nigéria, que está no Museu Britânico.

quer comentar? não se acanhe.

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