confissões

Há alguns anos eu estava em São Paulo, na Livraria da Vila, a fazer hora para uma matéria que um programa da TV Cultura faria comigo. Como estava um bocadinho nervosa, não dei conta de ler (o que seria o mais óbvio para deixar que os ponteiros cumprissem o seu papel e o pessoal da produção ajeitasse tudo). Fui para as estantes infantis vasculhar. Puxei um livro, sem ver título ou autor e abri em página qualquer, a frase, grande, inteira, cheia, jogou-se em mim “Quem nunca viu o mar, não sabe o que é chorar”, bem na hora o pessoal apressado da TV me chamou. Guardei o livro imediatamente, tomei meu lugar e fiz meu trabalho. Outro compromisso em seguida não me deixou voltar à estante, mas a frase ficou cravada em mim. Tive sossego muito tempo depois, quando decifrei, tratava-se de “O Beijo da Palavrinha”, de Mia Couto. Comprei-o uma, duas, três, dez vezes e o fiz rodar por aí, sempre em mãos adultas – porque acho que as crianças, de alguma maneira, já conhecem sua mensagem. 

Entre ontem e hoje pela manhã dei conta do “A Confissão da Leoa”, do mesmo Mia Couto, mas este exclusivamente para adultos. 

Um livro tão lindo! Não só pela beleza da literatura, pela habilidade do autor com as palavras, pela história tão fantástica e real, pela excelente escolha de narrativa. Mas, principalmente, pela jornada interna que proporciona. 

Ouvi alguns comentários de leitores, e até do próprio Mia, a falar que a obra se refere a direitos humanos, à repressão social, sexual, à condição da mulher africana, ao confronto entre mito e realidade… 

Eu não consegui pensar assim. Na minha leitura, o livro tratou dos enfrentamentos pessoais, das situações complexas que aprendemos todos os dias a driblar, das voltas que a cabeça da gente tem que dar para poder prosseguir, de um mar de coisas e sentimentos muito íntimos que não cabem ser revelados assim, aqui.  

Comprarei tantos “A Confissão da Leoa” quanto possa e presentearei meus companheiros de leitura. 

Ah! um pouquinho do que pode o delicioso Mia Couto, um tiquinho da poesia que habita sua prosa:

– “Como há espaço dentro de nós para enterrarmos as nossas pequenas mortes!”
– “Escutar já é falar.”
– “Ninguém mais do que eu amava as palavras. Ao mesmo tempo, porém, eu tinha medo da escrita, tinha medo de ser outra e, depois, não caber mais em mim.”
– “Todo o nosso presente era feito de passado.”
– “… viajo contra o destino, mas a favor da corrente.”
– “Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém.”
– “Essa aprendizagem fez-me sem plano mas com propósito.”

 

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