confusão de sintaxe

Cada vez mais as palavras me pegam pelo som, só depois a revelação dos sinônimos. Há palavras que adoro, mas que não têm significado bacaninha. A outras sempre atribuo um pensamento bom, apesar de saber de sua intolerância com o bem estar. 
 
Por exemplo, radicais livres. Assim, no campo sonoro, não consigo conferir-lhe maldades. Combater os radicais livres me parece uma violência.
Outra, que até tem relação com esse primeiro conjunto, é oxidante. Não sei se é o lance do “cs” presente em palavras do prazer como sexo, saxofone, reflexão, mas gosto de falar oxidante com o contentamento de quem recita.
 
Há no meu vocabulário de simpatias patife, que se a decodificação não tivesse me contado sobre seu objetivo de adjetivo, eu seria capaz de usá-la como algo simples, ingênuo, despojado: Minha tia, tão patife, sempre me esperava com bolo de laranja quentinho.   
 
Tenho também as palavras divertidas. Macarrão é uma delas. Não consigo falar macarrão sem sorrir. O que tem de almoço, mãe? / Macarrão, respondo com amabilidade na boca, não pelo prato, mas pela palavra.
Outra que vem acompanhada de um mostra-dentes é chaminé. Pura diversão dizer ou ouvir chaminé.
Só mais uma desse campo, helicóptero. Esse encontro consonantal me faz gracejo.
 
Por galhofa também gosto, as vezes, de deslocar as tônicas: melódia, Ronaldô, harmônia, isonômia. 
 
Tem as que falo, sabe-se lá por que, separando em sílabas. Coisa pausada, a parecer professorinha primária: ma-te-má-ti-ca, fe-li-ci-da-de, Do-mi-ti-la, ca-na-via-al.
 
Por conta dessas coisas que me assaltam de vez em quando, tenho vontade de escrever um texto só de som, sem significado. Uma coisa tipo aquela música do João Donato e Gilberto Gil, “A Rã”, saca?
Mas acho que isso não é possível, a minha vontade de não dizer nada periga me colocar num imbróglio de difícil explicação: Nessa melódia, a patife da Do-mi-ti-la subiu no helicóptero com os radicais livres e comeu todo macarrão que estava na chaminé.
Camisa de força e diploma picadinho na certa.
 
 

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