conversa de azulejo

Foi na casa da Suzie e do Vicente que descobri que os azulejos têm serventias diferentes de revestimento e decoração. Lá, os principais telefones da família e alguns desenhos dos filhos cobrem os ladrilhos.
Logo após essa visita, precisava deixar um bilhete pro Dé e tratei de fazê-lo na parede da cozinha. Recado recebido, recado respondido. Bom lugar para comunicação rápida.
Depois, foi minha falta de memória que contribuiu para a utilidade diferente: com uma série de medicamentos que tenho que administrar com horários variados, nunca lembrava se já tinha tomada A, B, C ou D. Confusão total. Resolvi montar um calendário nos azulejos e ir fazendo as anotações.
Um dia, sentada a olhar pra prescrição médica estampada ali, fiquei chateada; que infortúnio ter que dedicar às paredes assunto tão chato. Ora bolas!, se cabe isso, cabe também coisa muito melhor, mais agradável aos olhos e à alma.
Caymmi sacudia a casa com seu vozeirão. Não tive dúvidas, peguei canetinha e pintei: “Quem vem pra beira do mar, nunca mais quer voltar”.
Em surto, passei a escrever tudo que me vinha à cabeça, de letra de música a poesia; de frases a ditos engraçados. Cobri as paredes com beleza e sorriso. Num cantinho que sobrou, o Dé derramou sua caligrafia e bom humor: “Pichação é crime!”.
Dois dias depois veio a Lu e achou que era hora de lavar os azulejos. As letras se derramaram, choraram na esponja e foram pelo ralo.
Não me deixei abater. Caneta em punho, tratei de refazer tudo, outros dizeres, outras conversas. E desde então vamos vivendo assim: eu escrevo, ela apaga, eu escrevo, ela apaga. Gosto da renovação dos versos que conheceram também box dos banheiros, janelas e até alguns posts.  
 
 

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