flecha preta

sobre toda estrada, sobre toda sala 
paira, monstruosa, a sombra do ciúme
Lá em casa definiram os filhos assim: o irmão mais velho não tinha sentimentos menores; a do meio era o tipo boazinha, afogava toda e qualquer mesquinharia nela mesma; a caçula tinha direito a gritos de ciúme.
Nem sei se éramos assim ou se aprendemos de tanto ouvir. Até hoje não sei direito o que era forma e o que era massa na casa da minha mãe.
Eu sou a sem definição: nem o primeiro nem a última. Cresci na solidão do espelho. Correr pra dentro e abafar sempre foi uma de minhas especialidades. Não tenho grandes queixas disso –  aprendi bem a primeira lição.
Na adolescência estava muito preocupada com as praticidades: queria ser independente, vida própria, ter minha casa,  ser dona do meu nariz, regente de minha música. Não tive tempo para revoltas.
Quando o tempo passou um pouco eu estava lá, no meu objetivo, a temperar almoço, a ganhar o pão, a cuidar dos filhos. Não tinha tempo nem ânimo para pensar em sublevação.  
Um dia desses, a conversar feito adulta com minha mãe confessei que sou pessoa ciumenta. Disse que meus olhos ardem, que o sangue ferve, que a dignidade se esvai em ciúme. Citei mil dores de cotovelo.
Mais, contei das minhas verdades de liberdade. Do jeito que acho a vida e como o ciúme não cabe nela. Repliquei todos os argumentos com frases cruas, teorias de pára-choque, letras bobas.
Joguei tudo em tom de rebelião. Só faltou queimar os colchões da casa. A imaturidade que empilha os consultórios… precisava que ela me libertasse para o uso do sentimento. Citei fatos, pessoas, vontades. Também disse que não gosto que sintam ciúme de mim, não gosto de sentimentinhos perto de mim. Falei, falei, falei até perder o fôlego e a cor. Até recuperar a razão.  
A redenção não chegou, ouvi sentença estranha: “Você sempre foi assim, filha. Parece que tem ciúme, mas na verdade não tem. Não pense nessas coisas…”. 


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