Leucocoprinus birnbaumii

Acordei cedo para preparar almoço de aniversário do Dé. Dormi tarde porque estava a preparar almoço de aniversário do Dé.
No meio dessa atividade, umas horinhas de sono.
Tenho um pensamento recorrente desde a infância. Há alguns anos, depois da estreia do infantil Toy Story, sei que outros também são perseguidos por questão parecida: o que acontece com as coisas quando não sou ocular testemunha? Ao virar as costas para os inanimados eles assim continuam?
Acho que rola uma mágica e ganham vida e se esbaldam na ausência dos humanos. Fazem grande revolução: os pés das meias se desgrudam dos pares que lhes foram prometidos como parceiros eternos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença; as tampas dos potinhos da cozinha declaram independência e atravessam um portal fantástico para irem, promíscuas, tampar outros companheiros; as chaves mostram natureza autônoma e por isso mudam de lugar, nada de continuarem ali, em cima da mesa ou penduradas onde as deixei, escolhem onde querem ficar ou se esconder; o vestido azul nunca está pendurado em seu cabide, vaga fantasmagórico por aí, sonha em vestir a loira do táxi e assombrar as noites da cidade, depois desiste e se joga sem jeito e exausto em qualquer lugar do guarda-roupa.
As coisas são voluntariosas.
Há mais vida nas coisas que nos seres. O cão dá pouco sinal de seus movimentos pela casa, as plantas só me contam da sede e da mudança das cores.
Mas de ontem pra hoje, enquanto eu curtia o intervalo dos preparativos do almoço, algo estranho, sinistro, quieto e poderoso aconteceu.
Cogumelos se instalaram no vaso de planta da cozinha. Acho que enquanto batia o bolo eu deixei escapar pitadas de fermento na floreira, em míseras quatro horas, eles apareceram vistosos, crescidos, pulsantes, mais amarelos que sol de desenho de criança. Espanto!
Com a ajuda dos amigos, biólogos e curiosos, descobri sua natureza de independência e vontade própria de crescer aqui e ali.  
Temo uma associação clandestina entre eles e as coisas. Apavoro-me com ideia de que se apaixonem por um band-aid e se mudem para caixinha de primeiros socorros ou que queiram abordar as canetas e se instalem no penal. Imagino-os dentro do faqueiro, a tentar seduzir simpática e inocente colherinha.

Eles que não me provoquem, antes de tentarem qualquer tipo de movimento, podem conhecer rapidamente a lata de lixo!  
 
 

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