a ciranda das coisas

passei boa parte da tarde/noite de sábado a arrumar tranqueiras em casa.
um cômodo. um milhão de coisas.

o quarto que foi do Dé estava se transformando numa imensa sala de jogos. Lívia e eu abríamos a porta e jogávamos tudo quanto é tipo de tranqueira ali. não havia mais condições de trânsito. nem de parada.
me enchi de coragem, puxei fôlego, arregacei as mangas e tratei da questão.

por que, meu São Pixinguinha, por que essa precisão de amontoar entulhos que já não servem mais? por que essa necessidade de se agarrar ao passado dessa forma tão inexplicável?
não sei. não consigo imaginar o motivo de me doer tanto encaminhar para outro destino coleções e mais coleções de revistas, fitas de vídeo, enciclopédias, LPs, vídeo-games, coisinhas felpudas, papeis de carta…

também não sei como tudo isso veio parar aqui. já nem reconheço mais em boa parte dessa parafernália meus dias do passado, mas ainda assim, alguma coisa insiste em mim. dispensar objetos é como se traísse a vida, como se estivesse dando as costas para história, minha história. não consigo explicar a sensação.

é fato que abri espaço e que um ar novo circula pelos poros do antigo quarto. ele já não é mais a foz de qualquer objeto que deságue sem rumo. mas minha inquietação ao visitar as imperfeições que me compõem não passa. por que carrego tanto comigo? de onde vem essa necessidade de deslocar o passado para esse tempo?

não quero mais carregar o peso dos trecos nas costas, nos quartos, nas malas.
chega de tanto ontem no porvir – na vida e nos cômodos.

quer comentar? não se acanhe.

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