o que se traz do mercado…

Aprendi ainda menina que deveria ser boazinha: emprestar os brinquedos, dividir a última bolacha, doar roupas usadas, não brigar, não mentir, não responder aos mais velhos, dar a outra face… Assim tenho passado os anos. E uma culpa que não cabe no mundo me invade toda vez que cabulo, de forma acidental ou não, algum item. 
Pois hoje no mercado, na fila do caixa, estava quietinha a ler as capas das revistas de fofoca, quando um senhor parou com sua cestinha atrás de mim. Minhas compras já estavam na esteira, todas separadas, organizadas por grau de aproximação dos armários da minha casa. O senhor parecia frágil e apesar  do mercado oferecer aquele local preferencial para atendimento, ele estava ali. Pensei que talvez ele não tivesse prestado atenção e fiquei constrangida de informá-lo, apenas abri passagem:
– O senhor quer passar na minha frente? 
– Por quê?
Ele me perguntou de um jeito muito ríspido, me chocou. Seria uma ofensa concluir que ele era mais velho, que aparentava frágil, que é mais difícil pra ele que pra mim ficar em pé na eterna espera do caixa? Constrangida, inventei:
– Não estou com pressa.
– E eu, estou?
Não sabia como continuar a conversa e como desembaraçar a situação.
– Ok, continuemos cada um em sua posição. 
Sem falar, ele se esgueirou e passou pela minha frente, empurrou minhas compras e enfiou sua cestinha na reta de chegada. Fiquei quieta, tratei de justificar mentalmente sua atitude tão ríspida pra minha gentileza fantasiando um passado muito difícil, solitário e amargurado praquele homem.
A menina do caixa começou o processo. Ele pagou e foi embora. Sem olhar pra trás, sem agradecer, sem dar um tchauzinho, sem gentileza.
Paguei, embalei, carreguei. E quando descia a rampa para o estacionamento, quem fazia o mesmo, pé por pé, marcha lenta total, equilibrando as sacolas com o peso do corpo, agarrado ao corrimão? Sim, ele. Era notório que precisava de ajuda com as sacolas.
“A outra face, Adriana, dê a outra face…”. Dizia minha consciência inconsequente. 
– O senhor quer ajuda?
Fez um sinal de reprovação com a cabeça e me estendeu as sacolas. Quando chegamos ao final do percurso, devolvi seus pesos, sua solidão, sua amargura e segui meu caminho. Nenhuma palavra, nada. 
Conclusão: fui pro carro com a consciência pesada por ter deixado o velhinho no caminho com suas compras numa tarde chuvosa. Será que ele precisava de carona? 
Trouxe do mercado melão, pipoca, iogurte, pão, queijo e uma culpa absurda. 
Cabem tantas coisas num carrinho de supermercado…
O que será que Dr Freud diria? 

 

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