oração

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema V”)
Querido Deus,
 
Durante todo esse tempo estive por aqui, a esperar que você chegasse e se apresentasse. Desculpe se não consegui ver seus sinais em filhos, flores, mar, árvores, Bach, chuva, templos, sistema solar, Pixinguinha… Desculpe. Preciso de conversa direta, sem intermediários.
Há quatro décadas minha ideia vai pra lá e pra cá em busca desse encontro. Tenho algumas crenças, mas nenhuma delas obedece sua ordem. Tenho também superações e elas não se fizeram por milagres e eu não estava em seu colo, batalhei firmemente para que acontecessem.
O que eu queria mesmo, era que você chegasse aqui e se apresentasse, Muito prazer, Adriana, eu sou Deus. Você me chamou e eu vim. Será que você pode, por favor, largar essas coisas que anda fazendo, sabe-se lá o que são, e me aparecer? Não precisa nenhuma demonstração de toda sua autoridade, só me contar.
Não acho certo que você creia que exista só porque assim quer. Esse mistério todo não combina com quem é muito poderoso. Com todo respeito, Seu Deus, aparece aqui, faz um convite pra fé, inaugura uma crença.
Se eu escrevo esse bilhete é porque no fundo no fundo eu tenho esperança da sua existência e isso não me faz de toda herege, né? Se eu não sou assim tão descrente, aceita meu convite, aparece por aqui, me conta.
Por favor, se você estiver lendo esse bilhete e não puder, por motivos divinos, desses que minha limitada humana compreensão não alcança, não se zangue, não me atire raios. Abençoe essa ateia que só quer saber de encontrá-lo aqui, ainda em vida, claro. 
 

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