para onde estamos indo? estamos indo sempre para casa

a coisa boa de ser ignorante é a condição inesgotável para grandes surpresas.

mais de quatro décadas depois do lançamento, conheci Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. obviamente já me tinha sido indicado e por duas vezes já o tinha comprado. nenhuma delas durou muito aqui na estante, logo passaram para as mãos dos amigos atentos: o primeiro me disse que adorava e não tinha mais; a segunda confessou que estava em seus planos de leitura. os dois saíram aqui de casa, com datas de mais de cinco anos de diferença, com o livro debaixo do braço e um sorriso estampado no rosto.

coisa de um mês mais ou menos me segurei a novo exemplar, 3ª edição e 3ª tentativa, e jurei que nada mais seria lido antes que lhe dedicasse vistas. menti. ainda me aventurei, por sedução, a uma outra coisinha aqui que vale comentário, mas não já.

finalmente cheguei ao Lavoura. e agora entendo essa espécie de acaso que me fez demorar tanto para chegar a essa maravilha. acho que não tinha tutano suficiente para enfrentá-lo; se ainda sou literariamente imatura hoje, livros atrás então, eu perceberia muito menos.

quanta beleza, que ritmo de escrita, que narrativa! todas as exclamações do mundo estão em mim. queria que essa tapeçaria com as palavras, esse jogo de dizer diferente, esse encantamento que pode ser visto em qualquer uma das páginas, todas as imagens construídas tão claramente a emprestar objetos e qualidades de um lado para explicar outro, queria que tudo isso e mais o que não consigo explicar saltasse das páginas e se alojasse em mim com a mesma força que a emoção da leitura. queria que, ao ler Raduan Nassar, eu também fosse Raduan Nassar, como se os seus pedaços se grudassem em mim para sempre e me transformassem a pena.

ele começa contando assim: “Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo”. início de grande viagem…

quer comentar? não se acanhe.

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