a fria

sou curitibana e gosto de falar do tempo. não sinto problema nessa conversa repetitiva. gosto. é um dos trunfos de quem nasce por aqui. muito calor, muito frio, muita chuva, a geada, e aquele vento, o aeroporto fechado, o céu azul, o formato das nuvens, a imprecisão do Instituto.

na sala da minha vó tinha uma casinha daquelas em que um homem e uma mulher se revezam na porta a depender da umidade. meu ex-marido tinha um barômetro e olhava pra ele como um velho pescador que precisava saber, e comentar, das mudanças atmosféricas. tiro prints da tela do Iphone de hora em hora para acompanhar de um jeito visual o que meu corpo percebe a cada segundo.

a obsessão curitibana me acompanha. me sinto bem com ela. coisa autêntica. mas ontem, uma flecha me atravessou. parada em frente do elevador do prédio do dentista, uma senhora atacou: nossa, que frio, não aguento esse tempo, ontem tão agradável, hoje esse horror… falamos, as duas, sobre isso. e cada uma tratou de expor suas lembranças e conhecimentos meteorológicos. entramos no elevador embaladas pela conversa e uns segundos depois, tempo em que eu já sabia quantas vezes levantava à noite para ir ao banheiro e que usava ceroula bege, porque puxou a pontinha por cima da calça para me mostrar, perguntei o seu nome. grande erro. nem toda a intimidade que já tínhamos foi suficiente para esse tipo de papo. me olhou entre o medo e a raiva, entre o desprezo e o desespero, e disparou em tom seco, fechando a cara e colocando cada coisa em seu lugar: é Ivone!.

em Curitiba dá para saber que uma senhora pagou 89,00 numa torneira elétrica, que tem secadora em casa, que levanta duas vezes na madrugada para fazer xixi. dá até para ver sua ceroula. mas nunca, nunca mesmo, a conversa pode passar disso.

eu adoro esse lugar!

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Uma resposta

  1. Fran

quer comentar? não se acanhe.

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