deficiência

teve uma época da minha vida que eu era louca por rimas, riminhas, podiam ser pobres, não obedecer métrica, não formar sentido, não comunicar com exatidão, não ter ritmo adequado. mas eu pensava em rimas.

ainda bem!, isso passou.

hoje quando vou construir alguma coisa e sinto que há necessidade de empilhar as palavras com alguma sonoridade que as combinem, penso mil vezes e se depois de muita reflexão continuo na mesma ideia, parto em busca de palavra ideal, não da primeira que faça par, mas de uma que traduza com ritmo e beleza a ideia proposta.

eu não sei fazer poesia, nunca saberei porque tenho consciência do tamanho dessa arte e do tanto de gênio que é preciso para desenvolvê-la. gosto de ler, de ouvir, de ver poesia. gostaria de escrever, mas não dá.

acho que tem, também, relação direta com o jeito de pensar e a vontade de como comunicar. eu preciso de tudo muito explicadinho, da quase idiotia de ser literal. tenho a necessidade escrita da palavra lusa falada, a certeza de ser compreendida. e isso não combina muito com as sensibilidades da escrita poética.

quando me arrisco, minhas entrelinhas me sufocam e preocupam. louca vontade de abri-las e desenvolvê-las ao ponto impossível de não sobrar espaço para interpretação. quanta ignorância reunida!

procurando uma coisa encontrei outra. numa caixa antiga e lacrada, achei caderninho velho, de quando eu tinha 16 anos. espécie de diário com frases, versinhos, quadrinhas e essa coisinha que está aí. tinha junto um número de telefone, sete dígitos, grampeado e o nome Ricardo. não tenho memória de quem foi Ricardo, menos ainda em quais circunstâncias recebi seu telefone, mas sei bem o que pensei na época.

aos 16, eu pensei assim:

objetivo de homem é impressionar mulher

está provado, nada de mister
repare em um tipo, um tipo qualquer
pavão, leão ou João,
tudo variação da mesma canção
o que um homem sempre quer
é impressionar uma mulher

certa vez, um com cara de tanso
vinha com passinho manso
voz baixa, olhar sem descanso
quando vi, eu já ouvia em remanso
a boca que me dizia os versos de la mer
porque todo homem que vier
vem para impressionar uma mulher

quer comentar? não se acanhe.

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