meu jeito maravilhoso

cultivo etiquetas.
aprendi, ainda na infância, a manter-me um passo atrás.
meu pai sempre foi um tipo caladão. não contava e não perguntava. já na minha casa adulta, era incapaz de chegar sem avisar, de abrir qualquer porta, da geladeira, do armário, do baú de ferramentas, sem pedir permissão. nem ao banheiro ele ia sem fazer a pergunta.
no outro extremo, minha mãe. sempre quis saber tudo e investigava desprovida de qualquer pudor. minha vida financeira, sexual, minhas amizades, planos para o futuro, tudo era pauta livre. ainda é.

as duas pontas dessa minha vida não me conduziram exatamente para o meio-termo.
tenho nuances.
viajo de um lado a outro, mas não encosto nos extremos.

tem uma coisa, no entanto, que mantenho intacta.
sou uma pessoa dada a cerimônias com aqueles que mais gosto. os mais íntimos recebem de mim uma preocupação constante. a mesa posta, os bons hábitos durante as refeições, o tom de voz, o interesse pelos quotidianos e sonhos e dificuldades de quem está comigo, a vontade de compartilhar.
tudo sem perfurar a distância do que considero como saudável e respeitoso. e impenetrável.

gosto desses meus jeitos.
gosto mesmo de ser assim e me alegra a falta de necessidade de esforço para manter isso.
acho bom saber que quem está comigo, perto, junto, receberá uma parte nobre de mim, com a poupança de ter que conviver ou com um total desinteresse ou com uma liberdade sem fim.
dedico muitos cuidados para quem é íntimo.
é o meu jeito maravilhoso de amar, querer bem e respeitar.

quis contar isso porque ontem pensei com meus zíperes enquanto estava na lavanderia, ‘meu deus, Adriana, você não é somente coisas ruins’. tenho, pois, uma coisa maravilhosa.


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