o Maca e eu

Conheci o Macaxeira numa entressafra de viagem, meio do caminho para nós dois. Ele voltava do Superagüi, eu seguia para Ilha do Mel, a nossa baldeação foi em Antonina, no restaurante do Joaquim, onde tudo acontece. A primeira conversa tratou das citronelas que plantou em volta de sua casa para espantar insetos, a segunda sobre a melhor pomada natural para curar picadas de mosquito e a terceira sobre como era difícil o verão e as alergias dos bichos voadores. O Maca tinha uma sequencia interessante de pensamentos… Lembro que aquela foi uma tarde imensa, uma tarde de uma vida, nos descobrimos vizinhos e cheios de pensamentos e interesses comuns.

Depois daquilo passamos muito tempo nos encontrando: aos domingos no Pastel da Praça 29 de Março; no meio do caminho entre a casa dele e a minha, gentil, me ajudava com as sacolas do mercado e subia para jantar improvisado; pelas ruas da cidade.

Encasquetei que queria ir ao Superagüi. Se hoje a ilha não é um destino muito fácil, naquela época então, era coisa para desbravador, para homens de Portugal que se atiravam à viagem com muita expectativa, mas poucas garantias. O Macaxeira era um guardião do lugar, acho que o maior que andou por lá, não queria que eu levasse meus filhos “vai encher de gente lá, Adriana, a gente tem que preservar, cuidar, guardar”, expliquei que não pisaria onde meus filhos não fossem aceitos e ele cedeu, cheio de recomendações e certo mau humor. Na noite de fandango ele tocava pandeiro enquanto eu saracoteava desajeitada com corajosos e pacientes pares. De canto de olho, me espiava e ria, as vezes largava o instrumento e vinha me dar dicas de quem observar, o que olhar, quem era quem – aquelas coisas todas que ele tanto respeitava e guardava, mas que queria também dividir. Ainda bem, fui sua ouvinte, mais das histórias que do pandeiro, que, perdão Maca!, não era lá muito o seu forte.

Em sua batalha de preservação, lançou o Fandango do Paraná: Olhares para tratar de nos contar um pouco sobre o que percebia na riqueza caiçara e varrer nossa ignorância pra longe. Lindo conjunto de fotografias e explicações, depois virou exposição que tive o prazer de exibir, junto com a Luciana Monteiro no Canal da Música.

Quando me passou pela cabeça a ideia de tombar o acervo da Educativa, foi a ele que recorri e ele me deu o caminho, me indicou pessoas, foi até a rádio e fotografou os discos, os catálogos, tudo. Me incentivou para que eu não desistisse na luta burocrática.

A minha lembrança mais forte é de um momento triste, mas cheio de beleza. Em 2010 Maca estava internado no hospital São Vicente. Fiquei sabendo à noite, quando eu chegava de uma viagem. Fui direto pra lá, entrei no quarto e ele estalou os olhos de estrela, largou um sorriso e transbordou surpreso. Conversamos e tratamos de uma recomendação médica: levantar da cama, andar um pouquinho. De braços dados passeamos pelo hospital noturno, silencioso, a espiar detalhes, ver coisas e exercitar as pernas. Eu empurrando o carrinho do soro e ele me embalando com a amizade.

Faço essa tentativa de escrita, homenagem que não o alcança, bem na hora de seu sepultamento, 16:30. É difícil estar na frente do computador, de frente para realidade, a falar sobre a experiência de fantasias que foi esse convívio.

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no clique da Lina Faria

 

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