presa no elevador

não vi a vida passar na minha cabeça como num filme. não consegui pensar nos filhos. não lamentei a esperança do porvir. fiquei num vazio sem passado e sem futuro. presa num presente, num tempo indefinível em que me olhava descabelada no espelho a achar que ia morrer.

depois de uma dezena de solavancos, o elevador parou.

pernas bambas, fui inundada por uma onda de medo. pavor. apesar do marcador, não sabia em qual andar estava e mesmo o alarme a soar com força no prédio silencioso parecia não chamar atenção dos vizinhos para o meu drama.
meus alarmes sempre são desse jeito, defeituosos, apesar de acioná-los com violência demoram a sensibilizar os que estão perto.

durante aqueles minutos, tive tempo para pensar no vexame de morrer assim, numa queda doida num buraco que para mim ficaria sem fundo para sempre. e uma sede do tamanho do mundo me esbofeteou, eu não tinha uma garrafinha de água.

descobri que o pânico me faz suar e que ele briga com o desespero. e nessa luta estranha, que parece ser entre iguais mas não é, o primeiro vence e acalma tudo.
de repente recuperei a lucidez. nesse processo, descobri outra coisa: não há sanidade que sobreviva a gritos, porque quando comecei a gritar por socorro, a minha voz, estridente e solitária, foi o gatilho para nova onda de medo. como num disco riscado, passei a visitar o processo várias vezes – medo, sede, suor, desespero, lucidez, grito, medo, sede, suor, desespero, lucidez, grito… uma valsa aterrorizante, um círculo vicioso que ironicamente se repetia dentro daquele retângulo estreito que parecia ter as paredes encolhendo a cada segundo.

não sei quanto tempo demorou isso tudo. cinco minutos, cinco horas, cinco dias, cinco vidas. não sei.

do lado de fora, a voz salvadora me pediu calma. obedeci. alguns barulhos mais tarde, a porta se abriu. entre um andar e outro, não pensei que se o bicho andasse e eu estivesse em rota de fuga, ele se transformaria numa guilhotina, isso só me aterrorizou depois, quando estava em casa. me esgueirei feito uma serpente flácida a deslizar para além daqueles domínios de aço e luzes estranhas.

em casa, no meio do quinto copo d’água ainda estava trêmula. quando dormi fui acordada por aquele pesadelo maldito, a sensação aterrorizante de estar caindo num buraco.
de agora em diante, melhor usar as escadas.

quer comentar? não se acanhe.

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