serenata

estou aqui, atormentada com duas frases que escrevi e desgraçadamente não se compõem com nada. olho para dentro e não há rastro em mim que possa servir-lhes de complemento. não avanço em texto menos ainda em ideia.

não sei de onde vem esse deserto.

nas minhas euforias de viajante conheci Pablo, Jorgito, Inés, Ramon, Anita, Almeida e não conheci ninguém. falei aqui e ali, ouvi uma coisa ou outra e pouco se colou em mim. primeira vez.

deixei meus passos percorrerem o mundo porque é assim que eu sei. mas me surpreendo com esse silêncio, tão fundo e tão inédito que não reconheço seu ponto de partida. e menos ainda pra onde ele vai me levar.

andei por caminhos invertidos: estádio vazio e cemitério cheio, um milhão de vozes silenciosas na livraria e a rua com buzinas inúteis, rio que é mar e chuva que não cai, o passado que sobrevive e o presente que afunda. estive no contrário da regra e isso me inquietou um pouco. me calou também.

é difícil estar numa situação em que não me reconheço, não sei quem sou porque não encontro palavra para me explicar. nunca antes.

enquanto estou atrás das grades, troco meu intenso, imenso, inesgotável silêncio pela beleza de Cecília Meireles, Serenata:

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

quer comentar? não se acanhe.

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