tédio

Atenção: Essa vida contém cenas explícitas de tédio, nos intervalos da emoção.
(Alice Ruiz)

para espantar essa pasmaceira que me desce pelos ombros, escorre pelas pernas e vira nada no dedão do pé, resolvi ir ao mercado a pé. esperança que alguma coisa extraordinária me acontecesse e pudesse narrar aqui em tom de humor ou de melancolia, tanto faz.

pensei que no caminho poderia ver alguma paisagem nova que não se revela pra quem dirige. ou que fizesse compras além do planejado e precisasse pegar um táxi na volta e o motorista me contasse uma história imensa sobre o tempo, a política ou o futebol. ou que esperasse táxi ao lado de uma senhora que fizesse a gentileza de dividir comigo suas aventuras de juventude. ou, ainda, que voltasse a pé, cheia de sacolas, envergada no peso das batatas e uma boa alma me ajudasse no caminho enquanto me contasse sobre seu antigo trabalho no Cine Plaza.

fiquei a imaginar que qualquer coisa poderia me acontecer. o espanto de sempre ao observar uma pessoa no mercado, a surpresa na conversa com a guria do caixa, alguém a furar o sinal, a fila, a monotonia…

já me daria por satisfeita se cruzasse com uma senhora a passear com seu cãozinho de nome Pingo e que me contasse das idades avançadas dos dois e de como ela ficou com sua guarda depois que a filha mais nova resolveu fazer intercâmbio numa cidadezinha da Austrália.

e os conhecidos que vez ou outra tropeço no mercado? cadê? nenhum para me perguntar sobre os filhos ou os textos, meus pais ou irmãos.

nada.

fiz as compras na medida do que eu precisa e podia carregar a pé. a imaginação não me acompanhou no trajeto, não tive espírito nem para compor o que acontecia na casa que acho tão linda na Carlos de Carvalho e que sempre me desperta enredos.

voltei pra casa como saí, de diferente apenas as batatas para o almoço de domingo.

quer comentar? não se acanhe.

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