a morte

a morte não deveria se apresentar numa rua, num poste, ponte, numa bala de revólver. nunca fria e soturna num quarto de hospital, numa UTI, com suas multidões de zumbis e médicos e barulhos de bips e luz cinza.

o certo seria coroar a vida com um fim cheio de flores e perfumes suaves. de um jeito que o corpo fosse ficando tão leve, tão suave, tão translúcido que desaparecesse como mágica, como pó – cinzas jogadas ao vento.

um jeito que fosse dando tanto prazer que despertasse aquela estranha sensação de querer morrer de felicidade. e assim, a morte chegaria, para cumprir uma vontade sem trauma e sem dor. ao atravessar o limite do prazer, uma morte colorida e delicada.

poderia ser num caminho feito de ipês amarelos. corredor de árvores tão repletas que sacudissem com brisa e derramassem flores.
ou que chegasse de mansinho, mão estendida e sorriso terno, vestido esvoaçante, segurando um buquê de lírios cheirosos, a entoar Bach.

a morte poderia ser uma parceira, amiga e confidente, que, atenta, compreendesse a hora exata para se apresentar. educada e elegante, soubesse também o momento de sair, mesmo que isso lhe custasse viagem inútil. se errasse o endereço, o horário, paciência, iria embora de mãos abanando, sem recolher nada no caminho.

mas a morte não faz isso. ela se impõe, dona do ar, senhora do tempo, pontualíssima com suas vontades.
promove as mais estranhas perguntas e os piores sustos.
cria e recria mistérios.
é pesada feito pedra. dura como aço. rija, indobrável, incansável, incontornável.
a morte não quer saber que o amanhã chegará e se ele aparecer vazio ou cinza, isso não lhe diz respeito porque não há lírios, não há ipês, não há suavidade.
a morte é foice. qualquer outra coisa, irrelevante.

quer comentar? não se acanhe.

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