cimento e lágrima

obra no prédio. acontece lá nas profundezas da garagem. a impressão é que se trata de coisa aqui no apartamento. mais, aqui no quartinho.

uma britadeira que não perde fôlego nem por cinco minutos batuca o chão desde as primeiras horas. pelo andar da geringonça suspeito que já alcançamos água, petróleo, viajamos por todas as camadas e agora estamos lá no núcleo interno da Terra, 1231 quilômetros de fundura.

fui contra a obra da garagem. sei bem como funcionam esses lances, nunca terminam conforme o previsto. uma coisa puxa a outra: uma machadada errada e corta-se um cano; uma distração e a luz acaba; o que era para demorar 20 dias, alcança 45 facilmente. grande coisa, minha opinião. a quebração começou.

o primeiro problema de ordem prática e coletiva foi arrumar abrigo para os carros do prédio. nenhum pode dormir, acordar ou passar os dias aqui. ironia. o estacionamento do lado, pra onde todo mundo debandou, tem terreno irregular, pedregulhos soltos, margens deslocadas, buracos. ninguém achou ruim. eu achei.

outra coisa que aconteceu agora, agorinha enquanto divido meu drama, foi o corte do gás. girei o botão do fogão para fazer café pra Lívia e veio a surpresa: nada. liguei pra portaria e a notícia: é preciso desligar o gás, medida de segurança. o pessoal da obra tem medo de acertar o que não deve e mandar tudo pelos ares. #medo.

nem tinha necessidade toda essa confusão, é reparo estético, para o piso ficar mais arrumadinho. quem precisa de um piso mais ajeitado na garagem? ora bolas!, só os carros pisam ali. e fazem isso com seus sapatos de borracha, sem se importar se escorregam em beleza ou feiura; até quando estão com os olhos bem abertos, a iluminar o último grão de cimento do muro de trás, não se importam. mas do jeito que as pessoas priorizam os autos, deve haver alguma explicação para o fato.

dizem que o ser humano se habitua a tudo. ofereço aqui minha resistência para estudo. a cabeça lateja, corpo treme, meu humor escorre pelo ralo. odeio a reforma da garagem!

para tentar abafar o som lá de fora, ineditamente fechei as janelas. liguei o rádio. parece mentira, mas no dial, a fazer chacota de mim, Construção, e nem era a versão que gosto.

saco!

quer comentar? não se acanhe.

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