coroa e cara – na casa dos 40 anos

“Os 40 anos são uma idade terrível. É a idade em que nos tornamos naquilo que somos.”
(Charles Péguy)

pergunto, você sabe o que é elipse? procure aí na gramática mais próxima e siga comigo.

“a vida começa aos quarenta”. sim, começa. a piorar, a degringolar, a descer ladeira. normalmente as pessoas preferem não tascar o que falta nessa frase porque é muita decadência num único momento de vida. visão, joelhos, coluna, humor, hormônios, pele, dentes. tudo piora incrivelmente. e com velocidade.

e a tentativa de elogio? “você está muito bem pra idade”. não quero estar bem para a idade, quero simplesmente estar bem. e aquela outra frase: “você nem parece que tem essa idade”? é a pá de cal mesmo, o significado é horrivelmente trágico.

sei que meu corpo está a se decompor. é o que fazem os corpos, vão se espatifando para um dia, que a cada minuto fica mais próximo, parar de vez. mas saber disso, entender e aceitar, não significa gostar.

tenho uns amigos que me dizem que sou, ainda, muito jovem. claro que sou, eles são bem mais velhos do que eu e nessa perspectiva as coisas ficam um pouco nubladas. nenhum deles, no entanto, teve coragem de me dizer que a vida começa aos quarenta sem lamentar as heranças trazidas da juventude, época em que não se cuidaram direito, em que beberam demais, dormiram de menos, comeram bobagens e não trataram de preservar a carcaça porque achavam que os quarenta, ou o túnel que vem depois, estava muito longe. e, quando esse tempo chega a vida não é tão engraçadinha e fácil.

os meus amigos mais velhos, que invejam minha idade e me colocam ainda como viajante dos melhores tempos da vida, decerto têm a memória corroída pelas primaveras que ultrapassaram, esquecem-se dos vinte anos, os maravilhosos vinte anos.

aos quarenta você é chamada de senhora na fila do mercado, mas não pode ter atendimento prioritário. as empresas te acham velha para trabalhar, mas não pode se aposentar. alguns sonhos juvenis ainda estão vivos dentro de você, mas é meio ridículo querer realiza-los. você vai ao salão, pinta o cabelo, faz as unhas, mas já há mulheres com a metade da sua idade.

a vida começa aos quarenta. começa a piorar aos quarenta.

 

de um outro jeito:

 

há sabedoria em saber o próprio lugar no mundo. aos quarenta muitas vezes a gente sabe e se não sabe, não liga e isso também é sabedoria.

com quatro décadas nas costas, sabemos que não é preciso perder tempo com pessoas desagradáveis, com assuntos vãos, com picuinhas. uma página nova da existência é revelada e o reconhecimento por saber aproveitar os instantes é premiado em cada nova vivência.

é fácil compreender o prazer de trocar a balada por uma noite de sono ou uma taça de vinho em casa. os pais, irmãos, primos, tios deixam de ser um sobrenome e passam a pessoas repletas de características e individualidades que a gente aprende a reconhecer e gostar ou não. os amigos se transformam em bálsamos e companheiros de caminhada. e os amores estão em nossas vidas apenas para o bem, não suportamos mais ninguém à toa.

aos quarenta há segurança para dizer não, para dizer sim e para dizer talvez. cada um é dono do próprio nariz. e a opinião alheia só vale se vier de gente que importa.

nessa idade, a cabeça pensa melhor, trabalhamos com mais sucesso e com experiência para escolher com mais acerto os caminhos.

não nos escondemos de uma boa terapia ou não nos entregamos a ela por modismo. também aprendemos a cuidar do corpo, a entender que para cada noitada são necessários dois dias de folga e reposição; um quilo a mais demora muito a passar e por isso fica mais fácil trocar um brigadeiro por uma pera. e nem é um sacrifício morder uma pera.

quarenta anos e as celulites já não têm tanta importância, uma depilação atrasada não significa muita coisa, as unhas não precisam estar em dia com esmaltes impecáveis e existe a possibilidade de entender sensualidade até no moletom velho.

dá para dizer, sem se preocupar, que não leu Guerra e Paz. e que prefere um pulinho na livraria do que entrar na Zara. não há contradições, só a pessoa a assumir seus gostos, suas vontades, sua vida.

a bagagem nem é tão pesada porque aprendemos a largar o que não presta, mas o que segue com a gente nos leva longe, nos diz o quanto ainda podemos conhecer.

provavelmente, quarenta é metade do caminho. o fiel da balança. o equilíbrio da vida. o melhor. tempo pra trás e tempo pra frente em pé de igualdade. é mais fácil escolher os rumos do porvir.

 

a vida começa a piorar aos quarenta. a vida começa a melhorar aos quarenta. depende.

quarenta

 

 

 

3 Comentários

  1. Fran

quer comentar? não se acanhe.

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