ENEM 2015

quieta aqui acompanho os entusiastas do ENEM.

me pergunto o que significa, de verdade, a De Beauvoir numa questão de prova. por que há tanta felicidade nisso? poderia ser motivo de aleluias se a questão representasse os debates prévios na escola-nossa-de-cada-dia. mas isso não acontece. também poderia ter utilidade se a partir dos comentários as salas de aula passassem a estudar a sério sua obra. igualmente não.

o ENEM, apesar de ter caprichado nas questões e avançar a cada ano na elaboração das provas, ainda não dialoga com as escolas. cobra, com excelência, o que não é realidade nem nos bancos escolares nem na vida cotidiana dos estudantes. as questões partem de uma educação formal integral, de qualidade, porém não é espelho do que acontece entre as paredes das salas de aula. talvez seja um método correto, a considerar que nada deve ser nivelado no chão; mais exigência, pode significar mais preparo. mas enquanto as escolas liberarem para as universidades quase adultos que mal conseguem redigir um texto inteligível, este nível de provas ainda será uma desconexão total com as circunstâncias.

não é má vontade da minha parte, nem pouca fé na força das redes sociais, mas filósofos de todas as épocas aparecem em provas há muito tempo. e nem por isso as escolas se debruçaram em seus pensamentos. ao contrário, o time de pensadores imortais do mundo é tratado como fatia de assuntos estanques. é triste, é pobre e é verdade.

entendo que há uma brisa significativa atualmente a falar dos direitos das mulheres, uma marcha para que a legislação vigore nos sentidos morais e práticos em relação à mulher, um esforço de vários segmentos para chamar atenção para as questões feministas e femininas. entretanto, tratar a presença de um texto de Simone como marca de vitória de batalha é atitude tão ingênua, que não consegue nem chegar a ser superficial – dia seguinte, boa parte de professores e alunos continuam na corrida maluca do treino para conseguir passar no vestibular e não na missão maior da educação: informar, esclarecer, provocar, exigir debates e pensamentos.

no segundo dia, a comemoração a respeito do tema da redação. é bom saber que a junta tratou de eleger assunto tão relevante na atualidade, concordo. os dados para que o aluno desenvolvesse suas ideias por si só já tratam de esclarecer àqueles que não conhecem os índices e os problemas. tudo muito bem explicadinho e comprovado. mas tem uma coisa, uma pulguinha que me incomoda nisso tudo. lá, entre as instruções para a escrita, estava como dado eliminatório: “apresentar proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos”. sou de erguer a bandeira dos direitos humanos em qualquer situação, mas será que ao limitar o encadeamento de ideias do candidato, a comitiva de elaboração/correção das provas não acaba por ditar um comportamento padrão? mesmo que considere o repertório e escrita de cada um, ao não deixar que o tema seja explorado livremente não é uma censura que acaba com a possibilidade de saber como andam as cabeças de nossos adolescentes? poderíamos ter um panorama verdadeiramente plural dos pensamentos que estão por aí (alguns até a fornecer os índices que pontuaram o tema), mas em vez disso, me parece que há espécie de doutrina. por uma boa causa, mas doutrina.

que fique claro: sou admiradora de Simone de Beauvoir, sou a favor de tema de redação que traga reflexão verdadeira sobre os fatos do mundo. só queria que a escola fosse um pouquinho melhor para os estudantes. e queria também, caso não se tratasse de pedir muito, que os estudantes pudessem expressar seus verdadeiros pensamentos a respeito disso e assim radiografaríamos como anda o futuro.

quer comentar? não se acanhe.

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